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Livro dos Reis

Atualizado: 17 de Abr de 2018


Foto: Moeda usada no templo de Jerusalém, época herodiana. Crédito: María Luján.

Os dois livros cobrem um período de mais de quatrocentos anos, desde os dias em que Salomão subiu ao trono como Rei de Israel, em 961 a.C. (1Rs 1), até os favores recebidos pelo rei Joaquim nos anos em que ele viveu e recebeu os favores do rei babilônico, durante o exílio, em 561 a.C (2Rs 25,27-30).

O autor ou a escola de autores do livro dos Reis se encontra na época da monarquia; provavelmente seja alguém ligado à tradição deuteronomista, como são os livros de Josué, Juízes e Samuel.

Monarquia: A palavra monarca significa governo de uma pessoa só, isto é, o Rei. Ele possui poderes absolutos. Impera, manda sozinho. O rei é chamado pai da nação diante de tão grande poder exercido sobre o povo. Quando um rei morre, seu filho o sucede no trono, na administração do império. Assim, uma só família se perpetua no poder. No Brasil, o último rei foi D. Pedro II. Na Bíblia a dinastia de Davi governou por muito tempo. Foi a dinastia que mais durou.
A cidade na qual o Rei mora se torna capital do país. Nela são construídos templos, palácios, muros, exércitos, ministérios, corte. Na cidade o culto se faz em nome do imperador, algo sempre detestado em Israel que cultua somente uma divindade suprema: Javé.


Conteúdo do livro

O livro dos Reis está dividido na seguinte ordem:

1Rs 1-11, história de Salomão; 1Rs 12 – 2Rs 17, história da monarquia dividida até a queda de Israel; 2Rs 18-2Rs 23, reorganização em Judá após a queda da Samaria ao projeto idealizado por Josias; 2Rs 24-25, ocupação babilônica, durante o reinado de Joaquim, passando pelo governo interino de Godolias, ao tempo do rei Joaquim como hospede na corte do rei da Babilônia. Podemos encontrar cinco diferentes temas que compõem os livros dos Reis:


1. “Livro da História de Salomão” (1Rs 11,41). São os anais históricos da corte de Salomão, em Jerusalém. Grande parte do livro é dedicada a contar os fatos e empreendimentos coordenados por um dos principais reis de Judá. Os capítulos 1Rs 1 -11 formam um certa unidade.


2. Fatos da corte real: Temos aqui tanto os “relatos dos reis de Israel” (1Rs 14,19; 16,5) quanto os “Fatos dos reis de Judá” (1Rs 14,29; 15,7) que o autor resume ao máximo, indicando somente a origem, nome, idade, cidade, duração do reinado, principais atos do rei e emitindo sua opinião se foi um bom ou mau rei. O rei combateu ou não a idolatria. Governou com injustiça ou justiça.


3. Lendas proféticas: São as principais estórias ou temas populares em torno da figura do rei. Em geral apresentam fatos maravilhosos e proezas reais. Os autores tinham em mãos fatos sobre os profetas Aías de Silo (1Rs 11,26-40; 14,1-17); Jeú, filho de Hanani (1Rs 16,1-4); Elias, o tebista (1Rs 17-2Rs 2); Miquéias filho de Jemla (1Rs 22,1-36); Eliseu, filho de Safat (1Rs 19,19-21; 2Rs 2-10; 14,14-21); Jonas, filho de Amati (2Rs 14,25-27) e outros, anônimos (1Rs 13; 20).


4. Discurso: bênção e oração de Salomão por ocasião da inauguração do templo (1Rs 8, 14-53). É texto chave para a compreensão de toda a história escrita pelos deuteronomistas.


5. Avaliação particulares: Os autores inserem reflexões pessoais sobre os fatos. Isso acontece quando tem que explicar a divisão do império sobre o reinado de Salomão (1Rs 12), a causa do reino do Norte/Israel (2Rs 17,7-23) e a causa do reino do Sul/Judá (2Rs 21,1-16).


Quem escreve uma história não somente fica preso aos seus relatos, mas procura motivar a comunidade a ter seus passos firmes na mensagem do Deus de Israel.


O Império de Salomão

Davi reinou até estar velho e sem força. Quem iria ficar no trono deixado por Davi? Eis um fato nada fácil responder. Há dois grupos que ambicionam o trono do rei Davi: Salomão e Adonias. Adonias tem pretensões de chegar ao trono, e por isso pede para se casar com Abisag e, dessa maneira ficar perto do trono. A ideia não vai adiante, pois Salomão não quer nenhum tipo de sombra ao seu reinado. O golpe é descoberto e Adonias é morto, por ordem do seu irmão Salomão (1Rs 2,1-11; 2,12-25).

Os primeiro atos de Salomão é limpar qualquer tipo de oposição [F1] . Tira do poder Abiatar [F2] , representante do ideal libertário do êxodo e das aspirações igualitárias das tribos e, em seu lugar coloca Sadoc, amigo de Davi e que tomou partido em favor de Salomão (2,26-27). A chefia do exército passa para as mãos de Banaías [F3] em lugar de Joab (2,28-25). Salomão rapidamente eliminou qualquer tipo de resistência ao seu governo (2,36-46). Salomão herdou um reino organizado e em fase de expansão. Restava, enfim, aparelhar e sofisticar o estado ao ponto dele ser como as outras nações. O clamor do povo expresso em 1Sm 8 tornou-se uma realidade.


Um sábio

Quando falamos de sabedoria de Salomão, logo lembramos do rei com a espada levantada, ameaçando cortar ao meio um recém-nascido, para descobrir a verdadeira mãe da criança (1Rs 3,16-28). Esse caso é porem um símbolo da sua grande capacidade administrativa. Apropriando-se da experiência do Egito, ele procurou assessores na área da cultura e ciência para agilizar as questões externas e internas. Formou diplomatas para manter relacionamentos à altura com as outras nações, abrindo assim um espaço novo de negociações, inclusive com o Egito, que era a grande potência da época.

Acolheu em sua corte escritores, dando-lhes a tarefa de organizar as tradições populares sobre a história do seu povo e, ao mesmo tempo, estudar e adaptar a literatura de outros povos. Com isso, foi sendo formado um acervo organizado de cultura que, enraizada na tradição nacional, estaria aberta para outros povos. Ele não queria que Israel fosse um país fechado sobre si mesmo, mas uma benção para outras nações. É nessa época que grandes narrativas antigas são recolhidas, reinterpretadas e escritas. Grande parte desse material está contido na bíblia, principalmente em partes do livro do Gênesis, do Êxodo e dos Provérbios. (BALANCIN, Euclides Martins, História do povo de Deus, São Paulo, Paulinas, 1989, pp. 51-52.)


Salomão conduziu o reino de Israel ao máximo de sua grandiosidade. Mas esta época de ouro estava repleta de contradições e atitudes erradas. Alguém tem que pagar o preso dos gastos da corte, do rei, das embaixadas, do exército, das relações comerciais, das construções em andamento. Vamos ver quem trabalhava para sustentar toda organização da máquina imperial:

  1. Trabalho forçado: A mola do desenvolvimento chamava-se tributo ou imposto ou corvéia (1Rs 5,27-32)

  2. Quem pagava?: Além do trabalho forçado, outra maneira de pagar o tributo era o fornecimento de produtos agrícolas e pastoris para a exportação, manutenção da corte e do exército (1Rs 5,2-3).

A Bíblia parece indicar que esses produtos vinham de outras partes (1Rs 5,4-5). Entretanto o próprio texto fala que Salomão dividiu o país em prefeitura justamente para aprimorar [F4] a arrecadação. Eram os trabalhadores e camponeses a base de sustentação do estado.

As tribos do Norte reagiram diante de tantas mazelas impostas por Salomão e sua corte. Os fatores religiosos, políticos, econômicos e militares fizeram os nortistas se revoltarem. Com a liderança de Jeroboão, chefe de trabalhos forçados e com o apoio religioso do profeta Aías de Silo, estava em andamento a separação das tribos do Norte. A rebelião foi descoberta. Jeroboão foge ao Egito para não ser morte por Salomão (1Rs 11,26-40). Em todo o caso estava lançada a pedra fundamental de um movimento que não demoraria em acontecer. A dinastia davídica estava em perigo. Mais dias ou menos dias a unidade iria desaparecer.

Com a morte de Salomão o movimento separatista das tribos do Norte se fortaleceu. Jeroboão volta e é aclamado rei. O grande império foi dividido em dois: Tribos do Norte, que passou a ser chamado Reino de Israel, e as tribos do Sul, Reino de Judá.

Ler: 1Rs 12,1-5. O que o povo faz quando quer mudanças.

Quadro cronológico dos reis de Israel e Judá [1]

Davi: 1010-971 | Salomão: 971-931



No livro dos Reis assistimos ao desenvolvimento e consolidação da monarquia, com as correspondentes instituições civis, militares e religiosas que ela carrega consigo. Entre as instituições civis ocupam lugar importante a burocracia e todo o aparato de sustentação e representação do reinado. Entre as instituições religiosas destaque especial para o templo, junto com o pessoal sagrado (sacerdotes e levitas) e as festas litúrgicas.

Os livros dos reis são histórias da experiência religiosa do povo hebreu. Não são livros preocupados com as políticas, guerras ou acordos políticos e econômicos. Após uma leitura mais atenta somos capazes de compreender que o livro dos Reis é uma obra profundamente religiosa. Tudo que se refere ao templo, à prática religiosa dos reinos, os movimentos proféticos de Elias e Eliseu recebem um elevado destaque.

Os livros dos reis nos mostram um autor profundamente religioso. O autor faz uma leitura religiosa da história. A história da monarquia é uma teologia. O autor está preocupado em mostrar que o trágico final dos reis e reinados é a consequência lógica da progressiva degradação dos reis. “Eles fizeram mal aos olhos de Deus”.

Ezequias (2Rs 18,3) e Josias (2Rs 22,2) são dois reis que em tudo se aproximaram do monarca ideal, Davi.


O ideal do rei perfeito:

Em Rs 1 e 2, Davi já não é apenas o rei ideal, mas um modelo, um protótipo a ser seguido por todos os demais.

  • Salomão: por exemplo, diz-se que sentou-se no trono de Davi, em cumprimento daquilo que o Senhor havia prometido a seu pai por meio do profeta Natã (1Rs 2,12.24). Durante o famoso sonho de Gabaon (cf. 1Rs 3,6-7).

  • Em 1Rs 11 é dito que Salomão enamorou-se de muitas mulheres estrangeiras, que o perverteram (1Rs 11,4.6). Sem dúvida, “em atenção ao teu pai Davi” (1Rs 11,12), a divisão do reino não ocorrerá durante a vida de Salomão. Mais ainda, “em atenção a Davi” o reino não se separará da tribo de Judá (1Rs 11,13.32.34).

  • Jeroboão: Não só os reis do Sul, pertencentes todos eles à dinastia davídica, mas inclusive alguns do Norte, como Jeroboão, são julgados de acordo com sua fidelidade ao paradigma Davi. Diz o Senhor a Jeroboão, por meio do profeta Aías de Silo: (cf 1Rs 11,38). O desvio do modelo davídico atraí o infortúnio sobre a casa de Jeroboão e sobre o reino do Norte (cf. 1Rs 14,8-10).

  • Abias: sucessor de Roboão, “não pertenceu integralmente ao Senhor seu Deus, como tinha sido o coração de seu antepassado Davi” (1Rs 15,3). Contudo, “em atenção a Davi”, mantém-se acesa a “lâmpada” em Jerusalém (15,4).

  • Asa: “praticou o que agrada ao Senhor, a exemplo de seu antepassado Davi” (1Rs 15,11) , e seu filho Josafá (cf. 1Rs 22,43).

  • Jorão: filho de Josafá, abandonou o caminho de Davi para seguir “o caminho dos reis de Israel” (2Rs 8,18), com os quais contraíra parentesco ao casar-se com Atalia, filha de Acab. Mas de novo o Senhor mantém o reino de Judá, “em atenção a Davi”, a quem havia prometido que nunca lhe faltaria uma “lâmpada” acesa em Jerusalém (2Rs 8,19).

  • Amasias: “praticou o que agrada ao Senhor, mas não tanto como seu antepassado Davi” (2Rs 14,3).

  • Acaz: “não praticou o que agrada ao Senhor seu Deus, como o tinha feito seu antepassado Davi” (2Rs 16,2), ou seja, afasta-se, como tantos outros reis, do paradigma ideal.

  • Ezequias: é um dos poucos que alcança o ideal davídico (cf. 2Rs 19,34; 20,5-6).

  • Josias: tal como Ezequias, alcança plenamente o ideal (cf. 2Rs 22,2).


Resumindo, o ideal davídico não só dá unidade a 1 e 2 Rs., como também mantém viva a esperança inclusive nos momentos mais críticos, por exemplo quando produz-se a divisão da monarquia, após a morte de Salomão, ou quando sobem ao trono reis que se desviam do protótipo “Davi”. Enquanto estiver acesa a “lâmpada” que brilha em Jerusalém na presença do Senhor, nem tudo estará definitivamente perdido.


Bibliografia:

RÖMER, T. A chamada história deuteronomista: introdução sociológica, histórica e literária. Petrópolis, Vozes, 2005.

SKA, J. L. Introdução à Leitura do Pentateuco. São Paulo: Loyola.

LAMADRID, A. G. As tradições históricas de Israel: introdução à história do Antigo Testamento. Petrópolis, Vozes, 1999.

RÖMER, T; MACCHI, J-D; NIHAN, C. Antigo Testamento: história, escritura e teologia. São Paulo, Loyola, 2010.

VV.AA. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo, Loyola, 2003.


Endereço de alguns sites úteis:

www.metodista.br/biblica

www.perseus.com

www.airtonjo.com



[F1] Boa estratégia para quem procura reinar de modo absoluto.

[F2] Exilado por Salomão (1Rs 2,26-27). Seu sacerdócio é de tendência oracular (1Sm 23,6-9). Próximo de Eli, em Silo (1Sm 14,3).

[F3] Exército e responsável em executar Adonias (1Rs 2,25). , Joab (1Rs 2,29-34), Semei (1Rs 2,46).

[F4] Não agilizar


[1] Cf. PAVLOVSKY, V.; VOGT, E. Die Jahre der Könige von Juda un Israel. Biblica, Roma, n. 45, p. 321-347.

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Notas / ITESP – LitDrt – frizzo – Jun/2017

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Professor Padre Antonio Carlos Frizzo

Possuo doutorado em Teologia Bíblica pela PUC-Rio (2009). Sou professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP- SP) e assessoro cursos no Centro Bíblico Verbo, SP.

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