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Livro dos Juízes [1]

Atualizado: 17 de Abr de 2018


Foto: Lâmpadas período herodiano. Crédito: María Luján.

Juízes (שפטים) é um livro que apresenta a teologia da consolidação das tribos hebreias em terras conquistadas por meio da guerra. A obra, tal como o livro de Josué, é resultado redacional da escola Deuteronomista. O livro cobre fatos ocorridos desde Josué até a subida de Saul. O texto é uma procura para formatar o aparecimento de Davi e Salomão.

Para os escritores bíblicos a época representa perigo e insegurança. O livro dos juízes é uma criação literária e uma reconstrução histórica que estão dominadas pela experiência da iniciação. Ele questiona: como viverá Israel sem um grande líder? E a resposta é: viverá, mas nem sempre bem. Quais serão as ações dos povos vizinhos ao perceber a imanência de uma possível guerra? (2-3,6-16); como reagem os vizinhos diante dos movimentos expansionistas impostos por Israel? (1,4-5); Qual foi a interação das tribos que se identificaram com o mesmo ideal, interagindo clã por clã, tribo por tribo, vila com vila, região com região, até o surgimento do Estado? (17-21).

Vale destacar que do ponto de vista religioso, os autores Dtr (Deuteronomista) verificam que o povo vai, lentamente, tomando posições divergentes daquelas traçadas por Adonai. A nova etapa que começa com a geração dos juízes vai se alternando entre a fidelidade e a infidelidade. Há uma dialética que tangência toda a obra. Tal informação pode ser verificada na introdução histórico-doutrinal (2,6-3,6), o começo do capítulo 6 (v. 7-10) e nos marcos redacionais em que se enquadram as histórias dos seis juízes “maiores” – Jefté (10,6-16). Em todos esses textos encontramos repetido, com a precisão quase matemática, o seguinte esquema: “pecado – castigo – conversão - salvação”.

+ Pecado:

É tido como algo abominável o afastamento da comunidade da aliança contraída com Javé. Os Dtrs assinalam a seguinte fórmula:

  • Fazer o que é mau aos olhos de Deus (2,11; 3,7.12; 4,1; 6,1; 10,6, 13,1)

  • Abandonar a Javé e prestar culto a Baal e a Astarte (2,11.13; 3,7; 10,6).

  • Prostituir diante dos outros deuses (2,17; 8,27; 10,7).


+ Castigo:

Não é uma exclusividade dos Dtr mas todos os teólogos do At acenam o pecado como causa dos males físicos ou sociais. Sofre porque se abandona Adonai. Tal aspecto punitivo encontrou no livro dos Juízes três expressões:

  • Javé fica enfurecido contra Israel (2,14.20; 3,8; 10,7)

  • O Senhor entrega seu povo nas mãos dos inimigos por um determinado tempo (2,14; 3,8;.14; 4,2; 6,1; 10,7)

  • A prosperidade dos inimigos diante de Israel é prova do grau de infidelidade praticada contra o Deus que ama seu povo (Jz 2,23; 3,4)

+ Conversão:

  • O castigo faz Israel se arrepender e voltar a cultuar a Javé (3.9.15; 4,3; 6,6; 10,10; 2,18; 10,16).


+ Salvação:

  • O senhor envia Juízes para animar e salvar o povo (2,16; 3,9.15)

  • Porém a conversão do povo é frágil e passageira (3,11.30; 8,33).

Arquitetura do livro:

  • Construído sobre a história de Doze juízes: seis maiores e seis menores.

  • O corpo central da obra é formado pelos capítulos (3,7 – 16,31)

  • Duas introduções (1,1 – 3,6) e dois apêndices (17-21)

Estrutura do livro [2]:

I) Prólogos (1,1-3,6)

A) Justificativa (1,1-2,5)

a) As três tribos do sul (1,1-21)

b) As seis tribos do norte (1,22-36)

c) Representação divina (2,1-5)

B) Prefácio (2,6-3,6)

a) Nova geração (2,6-10)

b) Apostasia (2,11-23)

c) Tentações (3,1-16)


II) Otoniel – Abimelec (3,7-9,57)

A) Otoniel (3,7-11)

B) Aod (3,12-30)

C) Samgar (3,31)

D) Débora e Barac (4,1-24)

E) Cântico de Débora (5,1-31)

F) Chamado de Gedeão (6,1-40)

G) Vitória de Gedeão (7,1-22)

H) Seguidores de Gedeão (7,23-8,3)

I) Opositores de Gedeão (8,4-21)

J) O efod de Gedeão (8,22-28)

K) Família de Gedeão (8,29-35)

L) Abimelec (9,1-57)


III) Tola – Sansão (10,1-16,31)

A) Tola e Jair (10,1-5)

B) Inimigos de Jefté (10,1-18)

C) Chamado de Jefté (11,1-11)

D) Vitória de Jefté (11,12-33)

E) Filha de Jefté (11,34-40)

F) Críticos de Jefté (12,1-7)

G) Abesã, Elon e Abdon (12,8-15)

H) Nascimento de Sansão (13,1-25)

I) Casamento de Sansão (14,1-15,8)

J) Ataque de Sansão (15,9-20)

K) Os amores de Sansão (16,1-22)

L) Morte de Sansão (16,23-31)


IV) Epílogos (17,1-21,25)

A) Dã e Micas (17,1-18,31)

Santuário de Micas (17,1-13)

Migração da tribo de Dã (18,1-31)

B) De Gabaon a Silo (19,1-21,25)

Atrocidade de Gabaon (19,1-30)

Assembléia de Masfa (20,1-48)

C) Estupro em Jabes de Galaad e em Silo (21,1-25)


A Introdução histórico-geográfico (1,1-2,5 [F1] )

  • História reduzida sobre a instalação das tribos em terras de Canaã que oferece menos triunfalismo quando comparada à narrativa de Josué.

  • O assentamento não se faz por meio de guerras relâmpagos, mas lento e gradativo.

  • No sul as tribos obtêm êxitos, mas fracassos na planície.

  • No centro, Efraim, Manassés fracassam em seus ataques contra cinco cidades cananéias (Betsã, Tanac, Dor, Jeblaam e Meguido).

  • No norte as tribos somam êxitos e fracassos. Dã não consegue se instalar na planície marítima. Os dados parecem ser mais realistas, quando comparados a Josué 1-12.

  • Jz 2,1-5 destaca a presença dos cananeus dentro da terra prometida. Os israelitas não atendem ao apelo de Javé e caem em desgraças.


Introdução histórico-doutrinal (2,6-3,6)

  • Uma introdução histórica (2,6-10) e duas de ordem doutrinal (2,11-19 e 2,20-3,6).

  • Jz 2,6-10 é continuação direta do livro de Josué. Os vv. 6-9 repetem ao pé da letra Js 24,28-31, tal como Esd 1,1-3 repete 2Cr 36,22-23. Os vv. 6-9 estabelecem a conexão entre Josué e Juízes, assim como Esd 1,1-3 estabelece a conexão entre os livros das Crônicas e os livros de Esdras e Neemias.

  • Jz 2,10 contrapõe as gerações ou etapas de Josué e Juízes e faz uma avaliação religiosa das tribos.

  • Jz 2,11-19 é a exposição lógica da sequencia teológica “pecado – castigo – súplica - conversão – salvação”. Serve de introdução a toda história dos juízes. Oferece chaves de leitura para entender toda a história de Israel, especialmente a deportação ao exílio babilônico. Lugar de onde parte a Hdtr.

  • Jz 2,20-3,6 volta a realçar as dificuldades de convivência entre as tribos israelitas e os cananeus. Repete-se o que foi dito em Jz 2,1-3. Israel violou a aliança.


Juízes maiores:

  • Os Juízes maiores são: Otoniel, Aod, Débora-Barac, Gedeão, Jefté e Sansão.

  • São mulheres e homens que a tradição israelita recorda com admiração por terem feitos grandes obras para salvar as tribos de eminentes perigos.

  • Os inimigos são: cananeus, madianitas, moabitas, amonitas, filisteus, jebuzeus.

  • As lideranças são de cunho carismáticos. Sobre eles desciam o espírito de Javé e os impulsionam a fazer algo em defesa das tribos (Jz 3,10; 6,34; 11,29; 14,6.19). As ações tinham como finalidades salvar as tribos de iminentes perigos (3,31; 6,15; 10,1; 3,9.15).

  • Os juízes são vistos como instrumentos escolhidos por Deus: 3,9; 6,36-37; 7,7; 10,13).

  • As histórias são diferentes em conteúdo e tamanho, quando comparadas uma com as outras. Por exemplo: Otoniel, uma história muito concisa (3,7-11).

  • Débora-Barac são histórias muito desenvolvidas.

  • Gedeão (6,1-8,35) merece amplo espaço.

  • Abimelec, embora não sendo juiz merece longo relato (9,1-57). Foi o primeiro juiz tentado a se transformar em rei.

  • Jefté foi um juiz menor, em ralação aos que o precedem (10,1-5). Encontramos datas sobre ele, informação sobre sua família, tempo de reinado, duração e sepultura (12). A história de libertação (10,17-11,11) é uma atribuição dos Dtrs.

  • A história de Sansão (Jz 13-16). Da tribo de Dã, Sansão é apresentado como verdadeiro intercessor em prol de sua tribo na luta contra os filisteus. Será consagrado ao Senhor, desde o seio materno (13). Casa-se com uma filistéia e tem suas primeiras adivinhações (14,1-20).

  • As histórias e lendas populares são repletas de humor e ironia, elaboradas para zombar o inimigo que é preciso suportar.

Juízes menores:

  • São eles: Samgar, Tola, Jair, Abesã, Elon e Abdon (Jz 3,31; 10,1-5; 12,8-15).

  • Nenhum ato de heroísmo é atribuído a esse grupo de juízes. Eles apenas julgar um determinado grupo tribal dentre de determinado contexto,

  • O verbo Shapfat (julgar) implica uma atitude em prol de uma determinada tribo.

A teologia dos juízes:

  • Resultado da teologia Deuteronimista. O livro busca uma complementariedade entre história e teologia. O autor serviu-se, especialmente, dos seis maiores, encarnando neles a sua doutrina teológica.

  • Os heróis são de épocas muito diferentes. O autor apenas menciona as atuações sem entrar em detalhes sobre as práticas dos juízes. Neles, o autor enquadra sua teologia.

  • Diferentes perspectivas teológicas, quando comparamos o autor Dtr. e as praticas dos juízes.

  1. Na prática dos Juízes encontramos uma pluralidade de santuários.

  2. O Dt reconhece só um lugar de culto (Dt 12)

  3. O Dt condena os sacrifícios humanos (Dt 12,30-32); na história de Jefté há menção aos sacrifícios humanos (Jz 12).

  4. Nos Jz as histórias são das mais variadas; no Dt há uma história linear, sem possibilidades para outras divindades.

  5. Nos Jz encontramos uma variedade de práticas e cultos; no Dt não existe tal possibilidade. “O protagonista é “todo Israel” e não vários juízes”.

  6. O Dt centraliza um povo, e não inúmeros líderes carismáticos e isolados.

No livro dos Jz encontramos um tema caro ao Dt: a aliança contraída com Javé. Sobre a ótica da retribuição, o livro vai ao encontro de valores significativos feitos pelos líderes em favor de uma determinada tribo. “Quando Israel é fiel, Deus lhe envia libertadores, e sobrevêm tempos de paz. Quando abandona o Senhor para seguir outros ídolos, as maldições previstas pelo código deuteronômio desabam sobre o povo.
A sequencia “pecado – castigo - conversão- salvação”, repetida sete vezes com cada um dos juízes, de maneira uniforme e constante, põe às claras algumas doutrinas teológicas; por exemplo: a debilidade e fragilidade do povo, especialmente em relação aos cultos pagãos; a ameaça que pesa sobre Israel por causa de suas constantes apostasias; a inesgotável paciência de Deus, que se manifesta na sempre repetida aparição de novos libertadores” (Cf. Lamadrid, p.70).

Gedeão reconhece um amor divino sem limites (Jz 6,15-16). Há uma doutrina da graça que perpassa todo o livro dos Juízes. Deus se serve dos juízes para salvar o povo. Gedeão tem consciência de que a salvação vem, não de exércitos numerosos, mas da graça de Deus (Jz 7,2). Como declara o salmista: “Uns confiam em carros, outros em cavalos; nós, porém, no nome do Senhor nosso Deus, a quem invocamos” (Sl 20,8).

O debate atual em torno do livro dos Juízes [3]:

  • A obra é uma construção teológica e não um relato histórico;

  • Juízes foi inserido entre Dt – Js – Sm – Rs tardiamente, após o século IV a.C, na mesma época de Js 24 (K. Schimid);

  • Todos os relatos fazem referências aos fatos ocorridos no Reino do Norte, não implicando nenhum rei em Israel. Possivelmente uma redação teria surgido em meados de 720 a.C., em torno do santuário de Betel (E. A. Knauf);

  • O livro teria sofrido um longo processo redacional. Uma primeira parte teria surgido em torno dos relatos populares, nascido de um grupo primitivo (Ehud: 3,15-26; 4,17.18-22; Gedeão: 7,11.13-21; 8,5-9.14-21; 9,56. Esse grupo forma o conjunto do “livro dos Salvadores” (Richter). Um outro relator teria desenvolvido os relatos daqueles que “lutam por Yhwh”, com os modelos de salvador”: 3.12.14. Em seguida tudo foi integrado na historiografia deuteronomista (HDtr), com os pequenos juízes (10,1-5 e 12,7-15), mais as introduções de 10,6-16 e 2,6-3,6 e os ciclos de Sansão (13-16);

  • O relator final oferece uma história um pouco sombria quando se refere a Israel, que reflete a tragédia do exílio;

  • Para U. Becker o livro postula inúmeras redações deuteronomista: tradições antigas (Jz 5 - Débora; 6-9 – Gedeão; Jz 11 – Jéfté; Jz 13-16 – Sansão. Tais tradições existiam isoladas, independentes uma das outras. Com a intervenção do Deuteronomista, que inventa uma época dos juízes, o livro recebe outras histórias: 2,8-18; 3,7-15; 4; 6,1-6.25-32; 9,1-7; 10,6-19. Um redator final, por volta do século IV, teria somado ao conjunto do livro os capítulos 1,1-20.22-26 e os capítulos 19-21.

“Se seguirmos a leitura deuteronomista, leremos Juízes essencialmente como uma defesa para restabelecer a ordem monárquica, em uma época de desordem politica, moral e religiosa. Mas podemos também ler Juízes como um encorajamento para pensar na possibilidade de um novo projeto de sociedade surgir do próprio âmago da crise, a partir de uma análise lúcida dos riscos do poder, seja ele carismático, militar, tribal, coletivo religioso ou real. Nessa perspectiva de leitura, seria preciso sublinhar a importância do humor, da ironia e da caricatura como instrumento de debate (que nesse sentido, aproxima Juízes do livro de Jonas), bem como a combinação especialmente rica e sugestiva das figuras masculinas e femininas nestes textos” - cf. Corinne Lanoir

[1] As anotações provem dos seguintes autores, já citados na bibliografia: Antonio G. Lamadrid, As tradições históricas de Israel, Petrópolis, Vozes, 2001, pp.17-30; Jacir de Freitas Faria, Juízes: utopia ou invenção de uma sociedade igualitária. In: EstBil, 88, 2005, pp. 37-45; MAFICO, T, L.J., Jueces, in: Comentário Bíblico Internacional, Verbo Divino, Narrava, 2005.

[2] Cf. O`Connor, M. Juízes, NCBSJ, p. 301.

[3] Cf. LANOIR, Corinne, Juízes. ROMER, Thomas; MACCHI, Jean-Daniel; NIHAN, Christophe (orgs.), Antigo Testamento: história, escritura e teologia. São Paulo, Loyola, 2010, p. 322-337.

[F1] Paramos aqui.

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Notas/ITESP – Juízes – frizzo – Abr/2017

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Professor Padre Antonio Carlos Frizzo

Possuo doutorado em Teologia Bíblica pela PUC-Rio (2009). Sou professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP- SP) e assessoro cursos no Centro Bíblico Verbo, SP.

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