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Livro de Josué

Atualizado: 17 de Abr de 2018


Foto: Ruínas de Jericó. Crédito: María Luján.

Introdução [F1] :

O esforço empreendido pelas tribos israelitas na conquista e ocupação das terras é tema principal no livro de Josué. Até chegar à sua redação final, antigos relatos nascidos no ambiente da família, dos trabalhadores do campo, dos sábios atuantes na corte do rei e dos sacerdotes em seus diversos santuários, sofreram um longo processo de contar e recontar, escrever e reescrever determinados fatos da história de Israel e dos povos circunvizinhos.

A primeira tentativa de reunir essas antigas tradições históricas, a maioria do reino do Norte (destruído pela guerra de 722 a.C), aconteceu durante a reforma empreendida pelo rei Josias (640-609 a.C.). Com base na solene promulgação do livro do Deuteronômio (12-26), na época compreendido como “Livro da Lei” e “encontrado no Templo de Javé” (2Rs 22,8), a reforma consistiu, aos olhos dos grupos dirigentes e proprietários de terras instalados na cidade de Jerusalém, em realizar os desejos de um Deus – chamado Javé - devotado por Israel e desencadeou mudanças na vida religiosa e social. Entre elas, a centralização do culto em Jerusalém, a destruição dos santuários nos lugares altos, a perseguição e morte dos sacerdotes ligados às divindades estrangeiras, e a proibição das imagens e do culto aos deuses familiares, bem como a oficialização da páscoa como festa nacional celebrada na capital Jerusalém (cf. 2Rs 23,4-25).

É a partir do projeto de Josias, que deseja integrar o reino do sul e o território do antigo reino do norte em uma única unidade política – Israel –, em torno de uma única divindade – Javé – e sob um só comandante – descendente davídico –, e como legitimação dessas novas fronteiras que os leitores devem compreender as inúmeras guerras narradas no livro de Josué. As “guerras de Javé”, à primeira vista, assustam. Afinal, nunca houve e não existirá nenhuma ação bélica e invasora, conquistadora e destruidora aprovada por Deus. Os leitores se deparam, sim, com relatos fictícios no desejo de animar, integrar e determinar as ações expansionistas e controladoras da reforma deuteronomista, empreendida por Josias.

Um bom exemplo dessa história narrada para exaltar Javé, Deus de Israel, e o povo residente em Judá, pode ser verificado na época em que os hebreus começam a ocupar as terras na região. Em meados do século XII a.C. as grandes cidades-estados cananéias já não existem mais. Jericó, outrora pertencente aos cananeus, por exemplo, não passava de um monte de ruínas. Seu esplendor desaparecera há mais de dois séculos (Js 6).

As vitórias surpreendentes diante do forte inimigo, que se vê incapaz de vencer [F2] um pequeno e despreparado exército que luta em nome dessa divindade, justificam os esforços na ocupação e expansão das fronteiras no governo do rei Josias. Israel não tem nada a temer, pois Javé luta em seu favor (Dt 7,21; Js 1,9). Eis os brados que encorajam e legitimam a monarquia sediada em Jerusalém.

Todo conteúdo do livro de Josué só recebe sua forma definitiva na volta do exílio babilônico (597-536 a.C). Em meados do ano 400 a.C, época da redação final, o controle exclusivo do templo e da cidade de Jerusalém estava nas mãos dos sacerdotes que, por meio do regime de governo pautado pela teocracia, buscam sustentar os ideais de um povo escolhido e protegido por Javé, agora compreendido como “Deus Único” (Dt 6,4-9). Na ocasião, os sacerdotes recolhem e organizam tradições dos sábios deuteronomistas escritas no âmbito da reconstrução do templo, em uma sociedade que vive sob o sistema templo-estado, e são impulsionados a seguir fielmente todos os estatutos apresentados por Javé.

O livro de Josué tem a posse da terra como tema central e pode ser dividido em cinco partes, seguindo o próprio texto: a) primeira parte (Js 1-12): identificação do território e as conquistas; b) segunda parte (Js 13-21,45): distribuição das terras entre as tribos, segundo a necessidade de cada uma; c) terceira parte (Js 22): Retorno das tribos e solidificação da aliança entre as doze tribos; quarta parte (Js 23): um discurso de despedida, feito por Josué; d) quinta e última (Js 24): a importante assembleia de Siquém.

Estrutura do livro:

1-12 Conquista do país situado a leste do Jordão, levada a cabo sob Josué

1. Preparativos,

2. Reconhecimento de Jericó,

3. 3-4 Travessia do Jordão,

4. 5 Israel em Galgala,

5. 6 Conquista de Jericó,

6. 7 Furto de Acan,

7. 8 Tomada de Hai, construção de um altar sobre o nome Ebal,

8. 9 Estratégia dos gabaonitas

9. 10 Batalha nas proximidades de Gabaon; conquistas das cidades do sul,

10. 11Batalha junto a Merom; conquistas no norte,

11. 12 Lista dos reis vencidos,


13-22 Divisão do país

1. 13 Ordem; divisão da Transjordânia,

2. 14-19 Divisão da Cisjordânia,

3. 20 Cidades de asilo,

4. 21 Cidades dos sacerdotes levitas,

5. 22 Construção de um altar na Transjordânia,


23-24: Dois discursos de despedida


Dados sobre o livro:

· Escrito durante o exílio da Babilônia (586-538 a.C), o livro de Josué relata fatos situados entre 1230 e 1200 a.C,

· Tema central: ocupação e partilha da terra prometida,

· A primeira parte do livro apresenta a tomada global da terra (1-12),

· Na verdade, a conquista foi um processo lento e gradual; ora pacifico, ora violento,

· A conquista só termina com a realeza de Davi,

· O personagem principal é a Terra Prometida. O livro é um testemunho de que Deus realiza a promessa feita ao povo de Israel. Da escravidão – dos sem terra – para a posse da terra prometida (Ex 3,7-8)

· Por trás das longas e infinitas histórias está a gratidão pelo dom de Deus [F3] ,

· As tribos tiveram que conquistar a terra prometida. Nada caiu do céu, mesmo tendo a promessa divina,

· A Terra ( = Vida) é fruto da promessa divina,


13-22: A partilha da Terra

Esta parte do livro acena para os territórios ocupados e repartidos entre as tribos (13-19). Segue-se a enumeração das cidades de refúgio (20) e das cidades reservadas aos levitas (21).

Esta parte do livro é formada por documentos em forma de listas, que apresentam:

· As fronteiras: nunca mostradas em sua totalidade. Algumas são repetidas duas vezes, outras precisam ser completadas recorrendo às fronteiras de uma tribo vizinha,

· Relatos das cidades: para algumas tribos o inventário é bastante completo, ao passo que para Judá faltam algumas cidades, e Efraim não consta na lista,

· Relatos regionais: identificando nomes de regiões ou horizontes geográficos com a fórmula “de (tal lugar) até ( tal lugar)”,

· Relatos de guerras: conquistas ou ocupações de cidades e regiões, ou então sobre o fato de expulsar os cananeus.

A arqueologia demonstra que na segunda metade do século XIII a.C., a Palestina foi palco de inúmeros conflitos tribais, mas impossível saber quem foram os autores. Acontece que por esse tempo também assaltaram a Palestina os povos do mar, isto é, os filisteus, que após muitas tentativas acabaram se fixando na faixa marítima do sul da Palestina. Por outro lado, nas ruínas de Laquis foi encontrada uma inscrição que se refere a um faraó egípcio no quarto ano de seu reinado – com toda probabilidade Menefta – comprova que também o Egito fazia suas incursões conquistadoras na Palestina por esse tempo. Além disso, sabemos que as cidades-estado dos cananeus viviam em contínuas lutas pela hegemonia política. (STORNIOLLO, Ivo. Como ler o Livro de Josué: terra = vida dom de Deus e conquista do povo, São Paulo, Paulinas, 1992, pp.22-23)

Js 23- 24,1-28

· Js 23: Josué velho recapitula o projeto de Yhwh.

a) Recomendações: cumprir Lei (6-16)

b) Preservação da etnia,

c) Aparta-se dos deuses estrangeiros,

d) Apegar-se a Yhwh, como tendes feito

e) Pois Adonai expulsou de vós as nações.

· Js 24,1: Convocação das tribos * Js 24,2-13: Josué transmite o recado de Deus * Js 24, 14-24: Diálogo entre Josué e o povo *

Js 24,25-27: Renovação da Aliança * Js 24,28: Despedida.

· A Assembléia de Siquém faz um rápido histórico da caminha do povo.

· O povo formou-se na junção de varias tribos. A história envolve vários personagens (Abraão, Sara, Agar, Isaac, Rebeca, Jacó, Lia, Raquel),

· O livro oferece uma resposta sobre as origens históricas de Israel. Isto fez gerar uma profissão de fé (Dt 26,5-10 [F4] ). Abraão simboliza: vocação, terra, futuro, povo, benção, fidelidade etc. As narrativas envolvem patriarcas e matriarcas.

· É provável que cada tribo tivesse seus próprios antepassados [F5] . As diferenças são assumidas por todo o povo, agora unido,

· A história foi construída por todos até chegar a ser válida para todos, segundo a qual os patriarcas dessas tribos, todas, se identificavam com os descendentes de Jacó, filho de Isaac e neto de Abraão.

[F1]

1) Cuidado com a teoria da ocupação,

2) Tudo serve o interesse do capital. A lógica do ladrão.

3) Desconstruir

4) Libertação: ótica dos pobres.

[F2] Início.

[F3] teologia do livro

[F4] Comentar

[F5] O Reino esquecido do Norte

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Notas/ITESP – Josué – Frizzo - Mar /2017

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Professor Padre Antonio Carlos Frizzo

Possuo doutorado em Teologia Bíblica pela PUC-Rio (2009). Sou professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP- SP) e assessoro cursos no Centro Bíblico Verbo, SP.

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