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Josué: um líder na conquista da terra

Atualizado: 17 de Abr de 2018


Foto: Jericó, muralhas do Bronze Médio. Crédito: María Luján.

O autor deuteronomista [1] está focado na conquista da terra. Eis o critério central do livro de Josué.

Introdução:

  • Popularidade da catequese cristã,

  • Um jovem estudioso e praticante da Lei de YHWH,

  • A coragem da prostituta Raab em esconder os mensageiros de Josué,

  • O livro apresenta um verdadeiro quebra-cabeça.

Proposta de leitura [2]:

O livro, a primeira vista, parece ser um épico. O livro é primordialmente um escrito teológico, onde a terra e o processo para ocupá-la adquire relativa centralidade. Tudo visa evidenciar a doutrina da aliança por meio de várias ações guerreiras. A terra é o dom maior de YHWH. Ele será o doador e legitimador de todas as ações e planos realizados por Josué.

O livro consta de duas introduções: Js 1 e 22-24. Estes capítulos e outros interligam a narrativa (12; 21,43-22,6; 23) apresentam o ponto de vista teológico do autor deuteronomista. Entre estas duas narrativas surgem outras mais extensas: 2-12 e 13-21. Temos, assim, dois grandes blocos literários ladeados de duas grandes introduções.

Um referencial teológico:

1,1-18

Este capítulo, juntamente com os capítulos 22-24, forma um marco teológico que orienta todo o livro de Josué. Neles podemos observar temas fundamentais oriundos do livro do Deuteronômio. Moisés e seu sucessor Josué devem viver em conformidade com a Lei (Dt 6,24; Dt 10,12-13; Dt 28,1-2; Dt 29,9; Dt 31,12-13; Sl 1,2; 119,165; Esd 7,10). Será a obediência à palavra de Deus que irá resultar a prosperidade do povo de Israel, desta vez, sobre a liderança de Josué.

Vale ressaltar a quantidade de vezes que encontramos a palavra terra e seus sinônimos. Ao substantivo terra une-se o verbo dar. Deus surge como principal sujeito no ato de entregar a terra ao seu povo escolhido. Toda a iniciativa é proveniente de Deus. Ao povo resta cumprir as palavras ditas.

O capítulo se estrutura em três importantes discursos: (vv. 2-9): ordens de YHWH a Josué; (vv. 11-15) ordens de Josué ao povo num discurso incentivador que destaca a posse da terra; (vv. 16-18) resposta do povo prometendo realizar tudo que disse Josué. Nota-se que a palavra todo, todas, tudo, tradução do termo כל torna-se um uso comum na literatura deuteronomista e reflete o conceito de totalidade e unidade. Realidades preponderantes no Deuteronômio.


Vv. 1-11

Há uma interação entre a missão de Josué e a morte de Moisés (Dt 34). A missão de Josué provem de um mandato divino, pois ele era ajudante de Moisés. Trata-se de um ajudante militar, conforme revela Ex 17,9-14. Assim como Moisés, Josué também receberá uma ordem direta de Deus.

No v. 5 há uma promessa divina: eu estarei contigo. Tal promessa vem acompanhada de uma exortação: “seja valente” (v. 6). As fronteiras presentes no v. 4 são semelhantes às apresentadas em Dt 11,24-25. Tais distancias nunca chegaram a se realizar. Os limites apresentados farão parte do governo de Salomão (1Rs 5,1.4; 1Cr 9,26). Pode-se afirmar que as fronteiras traçadas em Josué recebem uma conotação mais teológica do que histórica.

A obediência à Lei deve ser primordial (cf. 1Rs 2,2-4; 9,1-9). Josué vai tomando as marcas de um rei ideal para reunir as tribos e conquistar os territórios. Tal figura assemelha-se a de Josias, responsável pela reforma religiosa e política empreendida em Jerusalém nos anos de 622. Oportuno relacionar Js 8,30-35/2Rs23,1-3; Js 1,7/2Rs 22,2; Js 5,10-12/2Rs 23,21-23. Será sobre o governo de Josias que se dará a primeira grande edição da obra deuteronomista [3].

Nestes versículos, sobretudo os vv. 2-9, encontramos elementos chaves que servem para dividir todo o livro: ocupação das terras situadas ao oeste do Jordão (vv. 3-5, que correspondem aos capítulos 2-12); a divisão das terras (vv. 6-9, correspondente aos capítulos 13-21; o tema da fidelidade a YHWH presente nos vv 7-8, correspondem aos últimos capítulos do livro: Js 22-24.

O caráter deuteronômico em Js 1, pode ser notado por inúmeras citações provenientes de Dt e seus paralelos em Js:

  • vv. 3-5ª = Dt 11,24-25

  • v. 4 = Dt 1,7

  • v. 5 = Dt 7,24

  • vv. 5b, 6,9 = Dt 31,6-8,23

  • vv. 7-9 = Dt 17,14-20

Nota-se, ainda, detalhes relacionados às capacidades indispensáveis para a guerra. Os escribas (v. 10) são homens encarregados dos trabalhadores, como encontramos em (Ex 5,6). Em outro momento são membros do tribunal (Dt 16,18), ou como em Js 10, oficiais do exercito (Dt 20,5). As provisões (v. 11) referem-se aos chefes encarregados pelas divisões do exercito. Aqui, não se fala das armas utilizadas durante a guerra santa (v. 5).

Js 1,12-18

A lealdade recebida da parte das tribos de além Jordão ou Transjordânia (vv. 12-18) é de causar certa curiosidade. Afinal, como um grupo de tribos que viviam longe e sem nenhum relacionamento com as tribos lideradas por Josué pode vir fazer parte do povo eleito. Eis mais uma obra do nosso autor Deuteronomista que insiste em legitimar a ocupação da região Transjordânia.

Nota-se que o livro de Js, Deus será o artífice de uma espécie de acordo entre dois grupos diferentes (v. 13). As tribos farão parte do processo de ocupação da terra prometida. Em seguida, as tribos tomaram parte do processo de ocupação da terras do lado ocidental. As tribos, solenemente, se submetem ao rigor da lei (Cf. Ex 24,3). Demonstram forte desejo de contrair uma aliança com o Deus de Israel. Tal pacto acontece, mediante a interpretação do Deuteronomista, segundo a autoridade de Josué (v. 18)


Sobre as tribos da Transjordânia [4]

Edom é o país ocupado por um povo semita do deserto siro-arábico aí por volta de 1300 a.C. O país está ao sul do mar Morto, em um planalto de 1600 metros de altitude, 110 km de comprimento e 25 km de largura. Seu limite ao norte é o rio Zered, ao sul o golfo de Aqaba. Sua capital, Sela. Outras cidades: Teman, uma fortaleza perto de Sela; Bosrah e Tofel, ao norte. A Bíblia costuma unir Teman e Bosrah para designar todo o país de Edom.
Moab está situado entre os vales do Zered e do Arnon, porém levava frequentemente sua fronteira ao norte do Arnon. Seu território principal está situado em um planalto de 1200 metros de altitude.
As cidades do ano 3000 a.C. foram destruídas e abandonadas. Aí por volta de 1300 a.C. o país foi novamente ocupado por semitas nômades e pastores.
Sua capital era Kir-hareseth (Kir, Kir-heres), a moderna Kerak. Outras cidades: Aroer, Dibon, Medeba e Heshbon. Cerca de oito km a oeste de Medeba está o monte Nebo (para a tradição sacerdotal) ou Pisgah (para a tradição eloísta) de onde Moisés teria contemplado a terra de Canaã e morrido.
No tempo do NT, a sudoeste do monte Nebo estava a fortaleza de Maqueronte, onde Herodes Antipas mandou matar João Batista. Moab e Israel nunca foram amigos. A tribo de Rubens tentou se estabelecer na parte norte de seu território, mas foi expulsa. Sob Davi e Salomão, Moab foi submetida, mas se libertou logo após a divisão de 931 a.C.
Antes de Israel adotar a monarquia como forma de governo, Moab já o fizera. Seu deus principal era Kemosh, ao qual eles ofereciam sacrifícios humanos. Sua língua se assemelha bastante ao hebraico.
Ammon era uma tribo aramaica que se estabeleceu na região superior do Jabbok. Sua capital era Rabbath-Ammon, a atual Amman, capital da Jordânia. Parece que se estabeleceram aí em 1300 a.C., mais ou menos. Os limites de seu território não são bem definidos, e Ammon foi o mais fraco dos reinos transjordânicos. Esteve freqüentemente submetido a Israel, de quem sempre foi inimigo. Cultuavam os amonitas o deu Moloc (ou Melek), e sacrificavam-lhe crianças. Sua língua se assemelha ao aramaico.
Galaad (ou Gilead) está também na região do Jabbok. Esta região foi conquistada pelos israelitas e habitada pelas tribos de Gad e Manassés. Seu território tem uns 60 km de norte a sul por 40 km leste-oeste e é bastante fértil. Chove bem e era coberta antigamente por densos bosques. Famoso era seu bálsamo e abundantes suas vinhas. Suas cidades principais: Penuel, Mahanaim, Succoth, Jabesh-Galaad, Ramoth-Galaad. No tempo do NT: Gerasa, Gadara, Pella.
Bashan (ou Hauran) é uma região ao norte do Galaad, formada por férteis planícies, boas para o cultivo do trigo e ótimas para pastagens. Seus bosques eram comparáveis aos do Líbano. A região sempre foi objeto de luta entre Israel e Síria, que se revezavam na sua posse. Não possuía cidades de destaque.


Duas partes do livro de Josué

Primeira parte: 2-12 [5]

  • Josué envia espiões rumo a Jericó. A dupla, por sua vez, recebe apoio estratégico de uma prostituta de nome Raab (Js 2).

  • O ato seguinte acena a passagem do rio Jordão e o acampamento em Guilgal (Js 3-4), onde acontece a circuncisão do povo e a primeira celebração do povo em terras de Canaã (Js 5).

  • Animados pela celebração, o grupo liderado por Josué conquista a cidade de Jericó (Js 6). A próxima conquista refere-se a Hai (Js 8). Entre esses capítulos é descoberto a falta de Acã contra YHWH (Js 7). Por pura estratégia Josué realiza um pacto com os gabaonitas (Js 9).

  • O pacto forma uma coalizão de cinco reis cananeus presentes na região da Palestina Meridional e chefiados pelo rei de Jerusalém, os quais declaram guerra em Gabaon, sendo bombasticamente derrotados pelas forças de Josué (Js 10).

  • Na Palestina Setentrional forma-se uma outra coalizão e chefiada pelo rei de Hasor, a qual foi também derrotada por Israel, que se apossou de todo a região Norte do país (Js 11).

  • Novamente, seguindo a primeira parte do livro, Josué termina com a enumeração dos reis vencidos e das cidades conquistadas (Js 12).


A segunda parte: 13-21

Batalhas vencidas, eis o momento de apossar-se da terra. O processo de ocupação ocupa toda a segunda parte do livro. A ordem de divisão, de ocupação da terra segue a seguinte ordem:

  • Divisão da terra entre as tribos, seguindo a seguinte ordem: primeiro as tribos da Transjordânia (Js 13), em seguida as três grandes tribos a oeste do Jordão (Js 14-17). As sete tribos restantes ocupam parte do território (18-19). Os capítulos 20-21 enumeram as cidades de refugio, bem como as cidades destinadas aos levitas.

Nestas duas grandes partes do livro encontramos uma variada coleção de relatos cultuais, étnicos, lugares e fronteiras tribais. Ocorrem inúmeras narrativas repletas de epopeias de estilos deuteronomistas. O livro retoma o desejo sempre eterno de YHWH de doar uma terra ao eu povo, mas esbarra nas inúmeras fraquezas do grupo liderado pelo secretário de Moisés. Nas falhas diante do projeto de possuir a terra encontramos o ensinamento teológico próprio de Josué. Há uma equação: o povo só será feliz se manter sua fidelidade a Deus e à aliança.

A obra literária acena que os três importantes sujeitos: Deus, Josué e o povo atuaram de acordo com os ditos presentes no livro da Lei de Moisés. A voz mais forte é a de Josué que procura agir em estreita harmonia com as palavras ditas por YHWH. Josué é apresentando como um verdadeiro realizador com conceitos básicos apresentados no livro do Deuteronômio: um único Deus, uma única e eterna Lei, um povo eleito, uma terra prometida e que deve ser ocupada. O livro circula em torno dessas realidades. Não é por acaso que no final do livro Deus, Josué e o povo são apresentados em total sincronia testemunhando a realização do projeto de YHWH.

A conquista definitiva da terra está fortemente ligada ao projeto da aliança contraída com YHWH. Verifica-se que é em torno da vivencia da aliança que Israel terá ou não futuro garantido. Quando se quebra a aliança Israel perde a terra. Tanto o livro de Josué como o livro do Deuteronômio apresentam a terra como graça divina. O povo que recebe a terra encontra estrangeiros dispostos a não medir esforços na consolidação do projeto divino. Um exemplo máximo de subserviência é Raab e os gabaonitas. Os que não possuem nada são os que se apresentam dispostos a colaborar com a realização do projeto. São esses grupos marginais que apostam no Deus de Israel. É nesta perspectiva profética e solidaria que devemos analisar a distribuição ou partilha da terra. “Cada membro do povo da aliança - berítico - recebe a possibilidade de ter sua porção de terra, sua herança, seu patrimônio familiar” [6].

[1] Cf. RÖMER, Thomas. A Chamada história Deuteronomista: introdução sociológica, histórica e literária. Tradução de Gentil Avelino Titton. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 11-9.

[2] Cf. CETINA, Edesio Sánchez. Josué. In: Comentário Bíblico Internacional, pp. 483-484.

[3] Cf. CETINA, Edesio Sánchez, Josué, p.487.

[4] Cf. http://www.airtonjo.com/historia14.htm. Acessado em 1 de setembro de 2010.

[5] Cf. LAMADRID, Antonio González. As tradições históricas de Israel, pp.54-55.

[6] Cf. CETINA, Edesio Sánchez. Josué, p. 484.

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Notas/ITESP – LitDrt - Frizzo – Mar/2017

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Professor Padre Antonio Carlos Frizzo

Possuo doutorado em Teologia Bíblica pela PUC-Rio (2009). Sou professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP- SP) e assessoro cursos no Centro Bíblico Verbo, SP.

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