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1º Reis 21: Quando reis tramam a morte do justo (A vinha de Nabot)

Atualizado: 17 de Abr de 2018


Museu de Israel, imagens de Baal. Créditos: Frizzo.

crítica

Na bíblia encontramos muitas lendas. Contos sobre enamorados apaixonados, reis justos, profetas e profetisas ousados, servas amantes das coisas divinas. Parábolas ditas no ambiente da casa, no diálogo entre pais e filhos. Foram contadas e recontadas durante os trabalhos na roça, no trato com os animais, no diálogo surgido durante as viagens, na contemplação da natureza. São estórias emblemáticas. Convites para pensar nos fatos do dia a dia. Relatos que estimulam uma mudança de comportamento.

A vinha de Nabot é uma dessas estórias proféticas, emblemáticas que cativa qualquer leitor. Lá, no primeiro livro dos Reis, capítulo 21encontramos a narrativa. Está dividida em duas partes. Na primeira encontramos o rei Acab e um pequeno proprietário, dono de uma vinha herdada de seus pais, chamado Nabot. Acab impera no Reino do Norte. Herdou de seu pai, o rei Amri, um vasto e poderoso império. Acab reinou por vinte e dois anos (de 874 a 853 antes de Cristo), em Israel. Apesar de toda sua riqueza e poder internacional, pois se casara com Jezabel, filha de um rei sidônio, Acab busca incomodar a vida de um simples camponês. “Dá-me a tua vinha, para que me sirva de horta” (1Rs 21,2) foi a proposta de Acab a Nabot. Nabot diz não. Afinal, a terra havia recebido de herança de seus pais. Com base na lei de defesa do patrimônio, Nabot julga estar livre da ganância do rei (Lv 25, 23-24). Diante da negativa do simples lavrador, o rei trama a sua morte. Aqui está a primeira constatação bíblica: os grandes são insaciáveis. Acumulam riquezas sob o sofrimento dos pequenos.

A frustração de Acab é compartilhada por sua mulher Jezabel. Ela, também rica e mentirosa, arma um plano para tirar a vida de Nabot. Convoca um falso jejum, escolhe duas testemunhas para inventar falsidades e de uma reunião religiosa faz morrer Nabot. Sua esperteza pode ser notada pela fala ao rei: “Vamos! Tome posse da vinha que Nabot de Jezrael não lhe quis vender. Nabot já não vive, morreu” (1Rs 21,15).

A segunda parte da estória é ocupada pela atuação do profeta Elias (v. 17-24). O profeta entra sem cena diante da injustiça. Com a palavra divina em seus lábios, Elias narra o juízo divino. A ordem confronta o rei. Acab recebe a crítica do profeta (v. 20-24). Elias proclama uma lista de castigos capaz de justificar sua morte. A estória da vinha de Nabot ocupa um lugar de destaque, quando o assunto é ter terra para viver. Ontem, como hoje a terra é vista como dom divino. Nela repousa segurança familiar, a proteção física e a garantia de sustento para toda vida. Não foi em vão que o papa Francisco profetizou diante do sofrimento dos imigrantes no mundo: “nenhuma família sem teto, sem terra e sem trabalho”.  

Reino de Amri, arte Élcio V. Mendonça.

Vejamos o texto 1º Reis 21:

Acab e Nabot

1. Sucedeu, depois disto, o seguinte: Nabote, o jezreelita, possuía uma vinha ao lado do palácio que Acabe [A1] , rei de Samaria, tinha em Jezreel.

2. Disse Acabe a Nabote [A2] [F3] : Dá-me a tua vinha, para que me sirva de horta, pois está perto, ao lado da minha casa. Dar-te-ei por ela outra, melhor; ou, se for do teu agrado, dar-te-ei em dinheiro o que ela vale.

3. Porém Nabote disse a Acabe: Guarde-me o SENHOR de que eu dê a herança de meus pais [F4] .


Reação do Rei

4. Então, Acabe veio desgostoso e indignado para sua casa, por causa da palavra que Nabote, o jezreelita, lhe falara, quando disse: Não te darei a herança de meus pais. E deitou-se na sua cama, voltou o rosto e não comeu pão.


A mulher do Rei

5. Porém, vindo Jezabel, sua mulher, ter com ele, lhe disse: Que é isso que tens assim desgostoso o teu espírito e não comes pão?

6. Ele lhe respondeu: Porque falei a Nabote, o jezreelita, e lhe disse: Dá-me a tua vinha por dinheiro; ou, se te apraz, dar-te-ei outra em seu lugar. Porém ele disse: Não te darei a minha vinha.

7. Então, Jezabel, sua mulher, lhe disse: Governas tu, com efeito, sobre Israel? Levanta-te, come, e alegre-se o teu coração; eu te darei a vinha de Nabote, o jezreelita.


Como apoderar-se da vinha de Nabot

8. Então, escreveu cartas em nome de Acabe, selou-as com o sinete dele e as enviou aos anciãos e aos nobres que havia na sua cidade e habitavam com Nabote.

9. E escreveu nas cartas, dizendo: Apregoai um jejum e trazei Nabote para a frente do povo.

10. Fazei [F5] sentar defronte dele dois homens malignos, que testemunhem contra ele, dizendo: Blasfemaste contra Deus e contra o rei. Depois, levai-o para fora e apedrejai-o, para que morra.

11. Os homens da sua cidade, os anciãos e os nobres que nela habitavam fizeram como Jezabel lhes ordenara, segundo estava escrito nas cartas que lhes havia mandado.

12. Apregoaram um jejum e trouxeram Nabote para a frente do povo.

13. Então, vieram dois homens malignos, sentaram-se defronte dele e testemunharam contra ele, contra Nabote, perante o povo, dizendo: Nabote blasfemou contra Deus e contra o rei. E o levaram para fora da cidade e o apedrejaram, e morreu [F6] .

14. Então, mandaram dizer a Jezabel: Nabote foi apedrejado e morreu.


Acab realiza seu sonho pela astúcia de Jezabel

15. Tendo Jezabel ouvido que Nabote fora apedrejado e morrera, disse a Acabe: Levanta-te e toma posse da [F7] vinha que Nabote, o jezreelita, recusou dar-te por dinheiro; pois Nabote já não vive, mas é morto.

16. Tendo Acabe ouvido que Nabote era morto, levantou-se para descer para a vinha de Nabote, o jezreelita, para tomar posse dela.


Elias, o profeta entre em cena

17. Então, veio a palavra do SENHOR a Elias, o tesbita, dizendo:

18. Dispõe-te, desce para encontrar-te com Acabe, rei de Israel, que habita em Samaria; eis que está na vinha de Nabote, aonde desceu para tomar posse dela.


O castigo virá [F8]

19. Falar-lhe-ás, dizendo: Assim diz o SENHOR: Mataste e, ainda por cima, tomaste a herança? Dir-lhe-ás mais: Assim diz o SENHOR: No lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabote, cães lamberão o teu sangue, o teu mesmo.

20. Perguntou Acabe a Elias: Já me achaste, inimigo meu? Respondeu ele: Achei-te, porquanto já te vendeste para fazeres o que é mau perante o SENHOR.

21. Eis que trarei o mal sobre ti, arrancarei a tua posteridade e exterminarei de Acabe a todo do sexo masculino, quer escravo quer livre, em Israel.

22. Farei a tua casa como a casa de Jeroboão, filho de Nebate, e como a casa de Baasa, filho de Aías, por causa da provocação com que me irritaste e fizeste pecar a Israel.

23. Também de Jezabel falou o SENHOR: Os cães devorarão Jezabel dentro dos muros de Jezreel.

24. Quem morrer de Acabe na cidade, os cães o comerão, e quem morrer no campo, as aves do céu o comerão.


Um juízo sobre Acabe

25. Ninguém houve, pois, como Acabe, que se vendeu para fazer o que era mau perante o SENHOR, porque Jezabel, sua mulher, o instigava;

26. que fez grandes abominações, seguindo os ídolos, segundo tudo o que fizeram os amorreus, os quais o SENHOR lançou de diante dos filhos de Israel.

27. Tendo Acabe ouvido estas palavras, rasgou as suas vestes, cobriu de pano de saco o seu corpo e jejuou; dormia em panos de saco e andava cabisbaixo.

28. Então, veio a palavra do SENHOR a Elias, o tesbita, dizendo:

29. Não viste que Acabe se humilha perante mim? Portanto, visto que se humilha perante mim, não trarei este mal nos seus dias, mas nos dias de seu filho o trarei sobre a sua casa [F9].

Aproximando-se do texto:

  • Antiga novela do Norte de Israel. Estamos diante de um relato teológico e não de um fato histórico. O que aconteceu com Nabote repetiu-se com muitas outras pessoas,

  • Um relato ritmado: a) Exposição: v. 1-3 (personagens); b) Ação: v. 4-16 (desenrolar da cena, fatos e busca de soluções; c) Clímax: v. 17-26 (busca-se uma solução); d) Desfecho: v. 27-29 (questões resolvidas e problemas solucionados).

Exposição: Um rei e um proprietário da vinha. Nabote é de Jezrael = Deus semeia. O rei tem uma proposta, mas a terra é herança. O rei quer apropriar-se da terra. A insistência demonstra uma insensatez (4.6.15). A resposta breve e curta de Nabote: “Javé me livre de ceder a terra dos meus pais”. A proposta do rei visa uma prática latifundista em prática no Israel do século VIII a.C. Oportuno ver a de Is 5,8 e de Mq 2,1-2.


Ação: A resposta de Nabote não agradou a Acabe. Entra em cena a mulher Jezabel = onde está o príncipe. Era filha de um rei fenício dada ao rei Omri. Jezabel era devota de Baal = Deus da fertilidade. Busca fazer a cabeça do rei (1Rs 16,31-33). Introduziu o culto aos deuses de deusas (1Rs 18,19). Jezabel questiona o rei e trama contra Nabote. Quem manda, o rei ou a rainha? Em outras palavras Javé ou Baal. Com o apoio dos notáveis, a rainha trama contra Nabote para matá-lo, sem recurso legal (Ex 22,27). Os versos 15 e 16 são tensos: Nabote está morto, já não vive.


O profeta entre em cena: Elias profeta de Javé. É Deus que apresenta Elias. Com a palavra de Deus em sua boca, Elias narra o juízo divino. A ordem confronta o rei (v.18). Por meio dele vem a justiça divina (Dt 19,6.12). O castigo segue a lei do Talião: Ex 21,23-24 “Darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, pé por pé, queimadura por queimadura ... (cf. Lv 24,17-20). O rei recebe a crítica do profeta (v. 20-24). Elias proclama uma lista de castigos ao rei. O castigo sobre Jazabel. Sua morte é narrada em 2Rs 9,30-37. Acabe é denunciado pela idolatria: (v. 25-26)


Conclusão:

1. Idolatria,

2. Política de aliança,

3. Desempenho da profecia em Israel,

4. Mesmos os pecados mais glamorosos são perdoados por Javé,

5. Terra dom de Deus, herança e não se vende. Sinônimo de identidade,

6. Crítica aos reis do Norte.



[A1] Até aqui Acab estava com b mudo ... está correto com e no final?

[A2] Idem para Nabot

[F3] Caso interno. Não mais guerras entre Israel e Síria.

[F4] Lv 25,23-24. Terra é protegida por lei. יהוה proíbe.

[F5] Verso recente criado a partir do v. 13.

[F6] Conforme a lei Dt 17,6-7.

[F7] Depois assassinato Anot é citado cinco vezes.

[F8] O castigo virá. Atuação profética.

[F9] Os filhos de Acab, Ocozias, Jorão reinarão em Isarel, sem descendentes. Atalia, reina em Judá.

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Notas/ITESP – LitDtr – Frizzo – Jun/2016

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Professor Padre Antonio Carlos Frizzo

Possuo doutorado em Teologia Bíblica pela PUC-Rio (2009). Sou professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP- SP) e assessoro cursos no Centro Bíblico Verbo, SP.

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