• Frizzo

Josué 6

Atualizado: 17 de Abr de 2018


Foto: Jericó, possíveis residências do Bronze Médio. Crédito: María Luján.

Informes introdutórios:

  • Não estamos diante de um texto cronológico,

  • Uma narrativa lógica, quando consideramos o anúncio da conquista feito no capítulo 2.

  • Nos v 2-6 Javé apresenta suas recomendações a Josué,

  • Nos v 6-7, comunicação de Josué aos sacerdotes,

  • Todos se empenham na execução das ordens, até a caída de Jericó (v. 8-21),

  • Realização do pacto com Raab (v. 22-25),

  • Ḥêrem חֵרֶם : trata-se da uma ideia indicando que algo deveria ser colocado de lado: a) na guerra santa animais, humanos tornavam-se propriedade da divindade vencedora; b) propriedades materiais eram oferendadas no templo. Segundo Dt 20, o anátema somente era aplicado em relaçao às cidades cananeias (vv 16.18).

  • Maldição: (v.26-27): As palavras são adaptadas de 1Rs 16,34. O verso 27 é um complemento vindo de 1,5: cujo a fama se divulgou por toda a terra. Uma forma de antecipar 9,1: “ao ouvirem tais coisas, todos os reis que estavam aquém do Jordao...”.

Leitura do texto:

6 Uma celebração ao redor de Jericó - 1. Jericó estava fechada, estava bloqueada por causa dos filhos de Israel . Nenhuma pessoa podia entrar, nem sair. 2. Javé disse para Josué: ˝Veja , dei, em suas mãos Jericó seu rei e seus valentes guerreiros. 3. Você vai cercar a cidade com todos os homens de guerra; cerquem a cidade uma vez. Assim, você vai fazer durante seis dias. 4. Sete sacerdotes vão levar sete trombetas de chifres de carneiros á frente da Arca. No sétimo dia, cerquem a cidade por sete vezes e os sacerdotes tocarão as trombetas. 5. E acontecerá que, quando ouvirem um toque prolongado da trombeta do chifre do carneiro, todo o povo vai dar um grande grito de guerra, o muro da cidade vai desmoronar e o povo vai atacar, cada um do seu lugar˝. 6. Josué, filho de Nun, convocou os sacerdotes e disse para eles: ˝Carreguem a Arca da Aliança e sete sacerdotes com sete trombetas de chifre de carneiro irão à frente dela˝. 7. Ele disse ao povo: ˝Passem e caminhem ao redor da cidade e os guerreiros vão andar à frente da Arca de Javé˝. 8. E aconteceu como Josué havia dito ao povo. Sete sacerdotes levavam sete trombetas de chifres de carneiro, diante de Javé, passaram e tocaram as trombetas e a Arca da Aliança de Javé vinha depois deles. 9. Os guerreiros caminhavam na frente dos sacerdotes que tocavam as trombetas e, abrindo fileiras, o povo seguia atrás da Arca marchando ao som das trombetas. 10. E Josué deu a seguinte ordem ao povo: ˝Vocês não vão gritar e ninguém vai ouvir a sua voz. Nem uma só palavra sairá da boca de vocês, até o dia em que eu direi a vocês: Gritem! Neste momento, o grito de guerra˝. 11. A Arca de Javé contornou a cidade uma vez e voltaram para o acampamento, e ali passaram a noite. 12. Josué levantou-se muito cedo e os sacerdotes carregaram a Arca de Javé. 13. Os sete sacerdotes, que levavam sete trombetas de chifres de carneiro, seguiam à frente da Arca de Javé, caminhando e tocando as trombetas. Os homens de guerra caminhavam diante deles e os que vinham depois, seguiam a Arca de Javé; enquanto marchavam tocavam sem parar as trombetas. 14. No segundo dia, cercaram a cidade uma vez e voltaram ao acampamento. Fizeram o mesmo durante seis dias. 15. No sétimo dia, eles levantaram bem de madrugada, ao romper da aurora, e cercaram a cidade. Somente neste dia, cercaram a cidade sete vezes e os sacerdotes tocaram as trombetas, 16. pela sétima vez. Josué disse para o povo: ˝Gritem o grito de guerra! Porque Javé dá para vocês esta cidade˝. 17. A cidade vai ser considerada ao anátema em honra a Javé, ela e tudo o que nela existe. Somente Raab, a prostituta, terá a vida salva e, com ela, tudo o que estiver em sua casa, porque ela escondeu os mensageiros que tínhamos enviado. 18. Somente vocês serão preservados das condenações ao anátema; não mantenham nem peguem nada que seja condenado ao anátema, movidos pela cobiça, pois isso traria a condenação e a destruição ao acampamento de Israel. 19. Toda a prata e o ouro, todos os utensílios de bronze e de ferro serão consagrados a Javé; eles pertencerão ao tesouro de Javé.


Tomada de Jericó - 20. O povo gritou o grande grito de guerra e tocaram as trombetas. No momento em que o povo escutou o som das trombetas, deu um grande grito, a muralha desmoronou e o povo subiu para a cidade, cada um de seu lugar, e tomaram a cidade. 21. Eles julgaram condenado ao anátema tudo o que existia dentro da cidade, passando-os ao fio da espada: homens e mulheres, jovens e velhos, bois, pequenos animais e os jumentos. 22. Josué disse aos dois homens que tinham inspecionado a terra: ˝Vão à casa da mulher, a prostituta, e façam sair de lá a mulher e tudo o que ela tem, conforme o acordo que fizemos com ela˝. 23. Os homens foram e fizeram sair de casa Raab com seu pai, sua mãe, seus irmãos e tudo o que lhe pertencia. Fizeram sair todos os que pertenciam a sua família e os instalaram fora do acampamento de Israel. 24. Eles queimaram a cidade e tudo o que nela havia, menos a prata, o ouro e todos os utensílios de bronze e ferro que foram levados para o tesouro da casa de Javé.

Josué cumpre o pacto com Raab - 25. E Josué deixou com vida Raab, a prostituta, bem como a casa de seu pai e tudo o que a ela pertencia, permanecendo junto a Israel até os dias de hoje, porque ela escondeu os mensageiros que Josué tinha enviado espionar Jericó. 26. Naqueles dias, Josué fez este juramento: ˝Maldito seja, diante de Javé, o homem que se levantar para reconstruir esta cidade de Jericó! Estabelecerá os seus alicerces sobre seu primogênito, e as suas portas, sobre seu caçula!˝. 27. E Javé esteve com Josué e sua fama se espalhou por toda a terra.


Sinalizando o texto:

a) Elementos litúrgicos:

  • A arca (vv. 4.8)

  • Sacerdotes,

  • Grito (vv. 10,20)

  • Procissão silenciosa,

  • A expressão כל "kol = tudo, toda" (6,3.5.21.23.25)

  • Demasiada insistência no número sete: sacerdotes (vv. 4,6,7), trombetas de chifre (vv. 4.6.8.9.13), sete voltas ao redor da cidade (vv. 4,8,13,15,16)

  • Aspectos beligerantes: ˝Veja, dei, em suas mãos Jericó seu rei e seus valentes guerreiros” (Js 6,2); grito de guerra – algo velado – “um grande grito de guerra”(v. 5, “deu um grande grito, a muralha desmoronou” (v. 20).

  • Incongruência literária: Jericó ruiu (6,20), mas a casa de Raab que se apoiava nas muralhas permaneceu de pé (6,22; 2,15).

Informes arqueológicos:

  • Jericó é hoje identificado como Tell es-Sultan (ver fotos), pequena colina de 307 metros por 161. A região foi escavada por três importantes escolas de arqueologia: 1907-1909, E. Sellin e K. Watzinger; 1930-1936, J. Garstang; 1952-1958, K. Kenyon.

  • O lugar foi habitado há mais de 7 mil anos a.C. Partindo do período neolítico - última divisão da Idade da Pedra, marcado pelo nascimento da agricultura e pela domesticação dos animais, na região encontramos sinais de habitações e sedentarismo. Nessa época era desconhecido o manufaturação da cerâmica. Passando pelos períodos do bronze antigo (3100-2200), ao bronze médio (2200 – 1550), a arqueologia aponta a existência de assentamentos na região de Jericó. Em meados do bronze recente (1550 – 1200), por ocasião de um forte terremoto, a cidade passou ao mais puro estado de abandono. Não há dúvidas de que a cidade exercera importante papel no cenário comercial por estar localizada à beira do rio Jordão e de grandes nascentes. Um verdadeiro oásis. A partir de 1600 a.C, o apogeu de Jericó desaparecera.

  • A conquista da cidade é uma narrativa de cunho sacerdotal com forte conotação litúrgica, possivelmente nascida de antigas cerimônias feitas ao redor do santuário de Guilgal. Para isso, é oportuno perceber a insistência pelo número sete (vv. 4,8,13,15,16), sacerdotes (vv.4,6,7), trombetas (vv. 4,6,8,9,13,13), seguidores da arca (vv.4, 8) e o forte “grito” do povo (vv.10,20).

  • Guilgal surge como marco de um antigo santuário localizado nas proximidades de Jericó. Sua etimologia pode ser compreendida como sendo um círculo (de pedra), possivelmente utilizado para ritual religioso. O lugar é indicado como sendo base das operações de Josué, onde é erigido um círculo de 12 pedras (Js 4,19), sendo o local escolhido para a circuncisão dos israelitas ( Js 5,9).

  • Os versículos (26-27) aparentam ser um pequeno fragmento textual somado à narrativa. Amaldiçoar será um ato típico dos sacerdotes e levitas, encarregados pelos conteúdos litúrgicos no período pós-exílio (cf. Dt 18,1; 27,14-26).

  • Uma mensagem teológica acentua que Javé esteve todo o tempo ao lado de Josué; Josué não se desviou um momento dos ditos de Javé, cuja fama se espalha por toda a terra.

  • (imagens de Jericó).


Conclusão:

  • Em Canaã, Raab é uma investigadora da queda das estruturas administrativas opressoras da cidade de Jericó e recebe a vantagem de integrar o novo sistema social aos filhos de Israel. Na posse da terra (esconde, mente, pactua) com as autoridades e o poder. Da condição de marginal faz um espaço de novidade: contra a exclusão.

  • Uma leitura Josiânica,

  • Terra, Arca e Javé: tema central. Javé salva

  • Delimitação das fronteiras

  • Uma mulher divide a cena com Josué; ele não é o único.

  • Referência ao nome Jordão, 50 vezes (cf. CARDOSO, p. 6).

Bibliografia básica:

BROWN, R. E; FITZMYER, J. A.; MURPHY, R. E. Novo comentário bíblico São Jerônimo. São Paulo: Paulus, 2007.

RÖMER, T; MACCHI, J. D; NIHAN, C. Antigo Testamento: história, escritura e teologia. São Paulo, Loyola, 2010.

RÖMER, T. A chamada história deuteronomista: introdução sociológica, histórica e literária. Petrópolis, Vozes, 2005.

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Notas/Josué – ITESP – Uso Exclusivo – Mar/2016

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Professor Padre Antonio Carlos Frizzo

Possuo doutorado em Teologia Bíblica pela PUC-Rio (2009). Sou professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP- SP) e assessoro cursos no Centro Bíblico Verbo, SP.

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