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Em torno de Davi surge a monarquia

Atualizado: 17 de Abr de 2018


Foto: Bet Shean, plano das rotas comerciais. Crédito: Maria Lujan.

Nos cem anos seguintes, entre 1050-950 a.C., o aumento da produção camponesa, propiciado pela introdução do ferro e do boi na agricultura, levará donos de bois, líderes políticos, guerreiros, e sacerdotes seduzidos pelos apelos do comércio internacional a esboçarem tentativas de acumulação de riquezas e poder (Jz 8,24-26; 9,1-4; 10,3-4; 1Sm 2,12-16). O desenvolvimento destas contradições internas, somado aos ataques de inimigos externos (1sm 11,1-2; 13,19-21), enfraqueceram os fundamentos igualitários da sociedade tribal israelita. Deste modo criam-se as condições para o surgimento de uma elite que concentra poder econômico, político e militar e institui a monarquia (1sm 9,1; 11,5-7; 25,2)

Com a monarquia configura-se uma sociedade em que uns poucos têm muito mais poder e riqueza do que a maior parte da população. A monarquia constitui um grupo social dominante que controla um exército e se mantém explorando o trabalho e apropriando-se de grande parte da produção das famílias camponesas, direcionando-a para a rede do comércio internacional. As famílias camponesas além de serem levadas a entregar parte de sua produção, também devem entregar suas filhas e filhos para trabalhar nas obras e guerras decididas pelo rei e seus aliados (veja 1Sm 8,11-17). Surge um pequeno grupo muito rico e poderoso e aparece na sociedade grande número de pessoas pobres e sem terras e sem casas, sem os meios necessários para uma vida digna (1Sm 22,2; 25,10). Esse processo começou timidamente com Saul (+1050 a.C.) e consolidou-se com Salomão (+950 a.C.).

Essas grandes modificações na sociedade exigem uma justificação, uma legitimação. Isso será feito através da elaboração de uma religião oficial. Isto é, uma teologia, uma espiritualidade e uma liturgia que favoreçam ao rei e à hierarquia social. A religião oficial se concretiza com a construção de um grande templo exclusivamente a serviço da monarquia, uma vez que as tribos possuíam seus locais de culto e pequenos santuários próprios. Assim, na antiga cidade-estado cananéia de Jerusalém, é construído o Templo de Jerusalém, celebrado como a “casa de Javé”, (1Rs 8,12-13; Sl 132,5-7.13-14; 134,1; 135,1.21). E para a compreensão da Bíblia é fundamental saber que a monarquia, apesar de ser uma reconstrução das estruturas cananéias, e sob influência do sistema egípcio (1Rs 3,1), será instituída em nome de Javé, o Deus libertador dos escravos e camponeses. E os sacerdotes e escribas da religião oficial vão apresentar a monarquia como algo desejado por Javé (1Sm 10,1-2; 16,1; 1Rs 3,7) e o rei como o filho escolhido e abençoado de Javé (Sl 2; 45; 110; 132). E também vão afiançar uma aliança eterna entre Javé e a dinastia de Davi em Jerusalém (2Sm 7,8-16). Enquanto nas tribos as mediações para a realização da vontade de Javé eram as leis de solidariedade e ajuda mútua, na monarquia a vontade de Javé se realizará através do próprio sistema monárquico e do rei.


Ascensão de Davi [1]

Os livros de história de Israel costumam apresentar Davi como sendo o sucessor de Saul, porém isso não é verdade. Davi não pertence à casa de Saul, mas à casa de Jessé, um renomado ancião de Belém, uma aldeia que ficava a oito km de Jerusalém. Jessé é da tribo de Judá, portanto, Davi não é benjaminita, como Saul. Além do mais, quando Davi, o filho mais novo de Jessé, é ungido (1Sm 16), Saul ainda vive. Esse fato só é consumado em 2Sm 2,4, onde Davi é ungido rei em Hebron pelos homens de Judá, e em 2Sm 5,2, onde é ungido rei pelos anciãos de Israel. O sucessor de Saul por direito deveria ser Jônatan, o filho mais velho de Saul. Aparentemente a relação entre Davi e Jônatan é muito boa. Mais do que isso, são conhecidas as passagens que falam do amor entre ambos (cf. 2Sm 1,17-27). Em outras oportunidades, Jônatas aparece como mediador entre Saul e Davi, mas sempre intercedendo por esse. Em nenhum momento se faz menção de alguma intriga entre os dois na disputa pelo trono. Ao contrário, não faltam oportunidades onde Jônatas passa esse direito a Davi (cf. 1Sm 18,4; 20,13). Porém, em 2Sm 16,5-14 tem uma cena curiosa. Durante a revolta de Absalão, Davi é obrigado a fugir de Jerusalém e durante a fuga tem um inesperado e desagradável encontro com Semei, um remanescente da casa de Saul. Ao ver Davi, Semei começou atirar pedras e a proferir maldições contra Davi com as seguintes palavras:

“Vai embora, fora daqui, homem sanguinário, homem perverso. Javé fez recair sobre você todo o sangue da casa de Saul, cujo reino você usurpou. Javé entregou o reino nas mãos de seu filho Absalão. Eis que agora você está na desgraça, pois você é um homem sanguinário” (2Sm 16,7b-8).

Tradições sobre Davi

Esta passagem parece desvelar o que as narrativas bíblicas tentam encobrir. Davi é acusado por Semei de homem sanguinário e perverso e de ter usurpado o reino. É provável que esse texto seja de uma fonte do norte. Em 1Rs 2,8-9 Salomão é aconselhado por Davi a que mate Semei.

Devido a essa situação dúbia do direito de sucessão de Davi, a narrativa bíblica ao longo do livro de Primeiro Samuel mostra uma forte preocupação em justificar a chegada de Davi ao poder. A expressão mais comum que se utiliza é: “Javé estava com Davi”. Em contrapartida, Saul é abandonado por Javé. Sem a presença de Javé, um espírito impuro se apossa de Saul, que só pode ser acalmado por um tocador de harpa e possuidor do Espírito de Javé (cf. 1Sm 16,14-23). Assim, Davi é habilmente introduzido na corte de Saul (cf. Ex 2,1-10; Gn 39,1-6).

Outra tradição que versa sobre a entrada de Davi na corte de Saul acontece via estória da luta de Davi com Golias (1Sm 17,1-58). Novamente Davi é contemplado porque deposita sua confiança em Javé. É possível que esta fosse uma estória que se contava e recontava nas aldeias, pois tem como mensagem a vitória do fraco sobre o poderoso. Mais tarde ela foi apropriada pela casa davídica e atribuída a Davi. Uma confirmação dessa hipótese encontramos em 2Sm 21,19, ali é Elcanã quem mata Golias de Gat e não Davi.

Uma vez na corte, começam as intrigas entre Davi e Saul na disputa pelo poder. Davi é amado por todos enquanto Saul é odiado (cf. 1Sm 18,6-16).A tensão fica insustentável, ao ponto de Davi ser obrigado a fugir. Nessa fuga ele é auxiliado por Jônatas, Micol, Samuel e Aquimelec.

Davi era um oficial do exército de Saul que conspirou contra o seu rei. Não podendo fazer frente ao seu antigo rei, Davi obrigado a fugir para o deserto onde forma um bando com pessoas endividadas que viviam à margem da sociedade (cf. 1Sm 22,1-8). Portanto, o conflito se amplia: de um lado se encontra Saul com um exército e do outro está Davi com um bando mercenário mantido com tributos e saques (cf. 1Sm 25; 27,5-12). É possível que desse meio, no deserto e ao lado dos excluídos, dos sem-terra, que nasceu a história popular de um herói chamado Davi. História essa que foi ganhando corpo até se transformar em lenda.

Saul começa uma forte perseguição a Davi, que busca apoio nos filisteus, arqui-inimigos de Israel (cf. 1Sm 21,11-16; 27,1). Começa, então, a relação dúbia de Davi com os filisteus, ora está a seu serviço, hora está contra eles (cf. 1Sm 23,1-13; 27). Chama a atenção que na batalha de Israel contra os filisteus, na qual Saul e seus filhos perdem a vida, Davi está do lado dos filisteus (cf. 1Sm 27,1-28,2). Porém, antes da batalha iniciar, na planície de Jezrael, junto ao monte Gelboé, Davi se retira (1Sm 29). Com isso ele não é culpado da morte de Saul, apesar de ser o mais favorecido. Os filisteus matam Saul e penduraram seu corpo na muralha de Betsã. O interessante é que a narrativa sinaliza que os habitantes de Jabes de Galaad é que resgatam o corpo de Saul (1Sm 31). Possivelmente por causa de sua estreita relação com a realeza Israel, apesar de não ser território israelita.

Assim termina o que podemos chamar de fase inicial do pequeno reino de Israel, que deve ser localizado no planalto entre Benjamim e Efraim. Posteriormente se estendeu na direção de Jabes de Galaad, na Transjordânia, provavelmente, porque não podia se estender em direção ao oeste por causa da presença filisteia. É difícil saber o que é histórico em tudo isso, devido ao fato do material bíblico que temos em mãos ser bem posterior aos acontecimentos narrados. Somam-se a isso as ideologias da casa davídica e posteriormente sacerdotal que encobrem fontes primitivas que aqui e ali trazem uma tênue memória das origens da monarquia em Israel.


Os feitos de Davi

Com a morte de Saul pelos filisteus, Davi começa a ganhar terreno. Certamente, no início e, possivelmente em todo seu reinado, Davi foi um vassalo dos filisteus. Seu pequeno reino começa em Siceleg, que tinha recebido dos filisteus (cf. 1Sm 27,5-7), e se estende até Hebron, onde é ungido rei sobre a casa de Judá (2Sm 1-4). Em Hebron, Davi vai reinar sete anos e dois meses.

Ao mesmo tempo em que Davi é feito rei sobre Judá, o filho de Saul, Isbaal (homem de Baal), cognominado Isboset (homem da vergonha), é feito rei sobre todo Israel em Maanaim, na região de Galaad (2Sm 8-11). Isso quer dizer que a casa de Saul continua a reinar, provavelmente também subjugado pelos filisteus, por quem fora derrotado na guerra que resultou na morte de Saul e Jônatan. Há, portanto, dois pequenos reinos coexistindo na região: um estabelecido em Hebron e outro na rica região de Galaad. Conforme nos conta a Bíblia, a disputa entre os dois reinos termina com a morte, primeiro de Abner, chefe do exército de Saul (3,22-27), e depois de Isbaal, filho de Saul (cf. 2Sm 4,1-12). Há que se mencionar que Davi sempre é inocentado das mortes dos seus inimigos (cf. 2Sm 3,28.37). Após a morte de Isbaal, Davi é ungido rei pelas tribos sobre todo Israel (cf. 2Sm 5,1-5). Não devemos entender isso como o domínio sobre toda a região que tradicionalmente é atribuída às doze tribos de Israel, que vai de Dã a Bersabeia e de Galaad ao mar mediterrâneo. Não podemos esquecer que a base do reinado de Davi está restrita à árida região que fica entre Siceleg e Hebron, na fronteira do deserto de Judá.

Um passo importante para a consolidação do pequeno reino de Davi parece ter sido a conquista da cidade jebusita de Jerusalém (2Sm 5,6-10). Esta cidade fica mais ao norte de Hebron, já mais em direção à região fértil, mas ainda montanhosa. Nela a dinastia davídica vai fincar raízes. Um texto base, que pode ser considerado fundante da dinastia davídica, é 2Sm 7.

Portanto, temos duas tradições diferentes na base da formação do reino de Judá: uma situada em Hebron e outra em Jerusalém.

Hebron fica a 31 km ao sul de Jerusalém. Conforme Gn 23,2; 35,27, a antiga cidade de Hebron se chamava Cariat Arba, talvez em referência às montanhas que cercam a cidade. Para Nm 13,22, a cidade foi fundada sete anos antes de Tânis, que era a antiga capital dos hicsos conhecida por Zoan. Na tradição bíblica, Hebron tem uma estreita relação com os patriarcas e matriarcas de Judá e Israel, tanto que suas tumbas se encontram ali (cf. Gn 23,19; 49,29-31).

Da Jerusalém antiga não existem muitas informações. Nas cartas de Amarna (séc XIV a.C.) há uma referência a uma cidade chamada Urusalim, governada pelo rei Abdu-Heba, que escreve ao faraó pedindo ajuda para combater os Habirus. Gn 14,18-20 faz menção a uma localidade de nome Salem, que era governada pelo rei Melquisedec, que pode tratar-se de Jerusalém. Em Js 10,1-27 vemos Josué conquistando Jerusalém ao derrotar uma coligação de cinco reis, entre eles o rei Adonisedec de Jerusalém. No entanto, como vimos acima, os Jebuseus ainda continuam habitando nela quando Davi a conquistou e a transformou em capital do seu reinado. A conquista prova que Jerusalém não pertenceu desde sempre a Judá. A aparente fácil conquista da cidade por Davi e os seus pode indicar a pouca importância que Jerusalém tinha naquela época. De fato, os vestígios arqueológicos de Jerusalém do tempo de Davi, localizada fora da atual muralha da cidade antiga, revelam uma cidade muito pequena.

Mais tarde, as tradições de Hebron e Jerusalém vão protagonizar um forte conflito na disputa pelo poder em Judá. O grupo ligado a Hebron (2Sm 3,2-5) se identificará mais com o modo de vida tribal e com as tradições de Silo, enquanto que o grupo de Jerusalém (2Sm 5,13-16; 1Cr 3,1-4) estará identificado mais com o sistema da cidade-estado (cf. 1Rs 1-2). Outro distintivo são os nomes dos sacerdotes: Abiatar de Hebron, cuja raiz é Javé; e Sadoc de Jerusalém, cuja raiz é sedeq (justiça). Ambos irão protagonizar o conflito religioso em Jerusalém (cf. 1Rs 1-2).

O que passou nessa época com Israel, norte (Efraim e Manassés), não sabemos. Temos pouca informação sobre essa região após a morte de Saul. Os relatos bíblicos concentram suas informações sobre Judá e a capital Jerusalém. Somente a partir de mais ou menos 930 a.C., com Jeroboão I, é que voltamos a ter notícias sobre o norte. Esse período começa com o episódio conhecido como o cisma dos dois reinos (cf. 1Rs 12-13). Só que aí, já temos um Israel, norte, bem mais desenvolvido que Judá, sul.


Bibliografia:

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DREHER, Carlos Arthur, O trabalhador e o trabalho sob o reino de Salomão, em Estudos Bíblicos, 11, Petrópolis/São Leopoldo/São Paulo: Vozes/Sinodal/Imprensa Metodista, 1986, p.48-68.

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GARMUS, Ludovico. A comunidade de Israel em crise: o exílio da Babilônia. Em: Estudos Bíblicos, n.15, p. 23-37, 1987.

KONINGS, Johan. Historiografia de Israel nos "livros históricos". Em Estudos Bíblicos, v.71, Vozes/Sinodal, 2001, p.8-31.

ZABATIERO, Julio Paulo. O Estado e o empobrecimento do povo – Reflexões a partir dos profetas do século VIII a.C. Em: Estudos Bíblicos, n. 21, p.23-32, 1989.


[1] Cf. KAEFER, Ademar. O surgimento da monarquia.

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Notas/ITESP – LitDrt – frizzo – Maio/2017

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Professor Padre Antonio Carlos Frizzo

Possuo doutorado em Teologia Bíblica pela PUC-Rio (2009). Sou professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP- SP) e assessoro cursos no Centro Bíblico Verbo, SP.

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