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As igrejas do apocalipse


Mapa da Ásia Menor | reprodução internet

Introdução

· A Ásia Menor tinha se transformado em um centro comercial de grande importância para a economia do império romano, no século I a.C.

· Um importante corredor político e econômico entre o Sul e o Ocidente.

· As comunidades do Apocalipse se formam após o ano 70, mas na região o evangelho já era conhecido desde os anos 40 ou 50 d.C.

· Terra fértil à produção de minério, medicina, perfumes, sedas, unguentos, colírio, cerâmica e águas termais.

· A Ásia se apresenta como um terreno fértil e prospero ao evangelho.

· Na região era conhecida inúmeras manifestações religiosas. O culto imperial se desenvolveu enormemente, sobretudo após o governo de Domiciano (81-96 d.C)

· O desenvolvimento do império se contrastava com a situação dos pobres. A riqueza estava nas mãos da aristocracia, latifundiários, ricos produtores e comerciantes.

· Os capítulos 2 e 3 foram escritos na fase posterior dos capítulos 4-12 e 13-21.

· Muitos comentários acenam que o livro começa no capítulo 4 com a celebração litúrgica celeste, que apresenta a visão de João quando viu nos céus uma porta aberta.

Os capítulos 2 e 3 foram escritos para identificar os destinatários do livro e para mostrar uma forte espiritualidade e mística de resistência diante dos inimigos.

O Destruidor das comunidades

· Há dois inimigos das comunidades: Império romano e grupos de judeus fariseus.

· Os judeus participam de inúmeras instâncias na administração do Império.

· A ideologia do império se impõe por meio do culto ao imperador (castigo e perseguição).

· No interior das comunidades há um outro grave problema: falsos pregadores (nicolaítas [1], profetisa Jezabel). Outros ensinos e exigências são impostos à comunidade.

· Desconforto no interior das comunidades: quem seguir.

· Éfeso é a comunidade “central” nas atividades missionárias.

As cartas

· As cartas têm destinatários específicos.

· Os destinatários recebem uma carta com aspectos universais “ouça o que o Espírito diz às igrejas”.

· Vale ressaltar que o número (7) tem um peso simbólico. Na região havia outras igrejas organizadas deste os tempos de Paulo. As comunidades são protótipos de outras comunidades.

· O número sete busca legitimar e consolidar a presença cristã na região e assim dar conta da extensão e expansão do cristianismo.


As cidades destinatárias:

· O Apocalipse foi escrito em etapas, que vão do ano 64 até 95.

· o livro do Apocalipse foi escrito em alguma região da Ásia Menor, provavelmente nas proximidades da comunidade de Éfeso.

1a) Éfeso:

Elogiada pela resistência, fadiga e perseverança, atua contra os malvados e desmascara os falsos profetas e detesta os nicolaítas (filosofia que negava a encarnação de Cristo. Possivelmente o autor do livro faz referências a alguns grupos que propagavam ideias estranhas. Pode ser que pregavam a salvação pelo conhecimento intelectual (gnosticismo). Para algumas correntes Jesus era Deus até antes de morrer. Na hora da morte, Deus teria abandonado. Um tal de Nicolau é mencionado em At 6,5. “Os nicolaítas se apoiavam nas cartas de Paulo, sobretudo na carta aos Coríntios (1Cor 8,1 a 10,33), sobre as carnes oferecidas aos ídolos. O grupo foi rejeitado por Paulo (1Cor 1,17). No apocalipse o grupo é citado duas vezes (2,6; 2,15). O gnosticismo negava o valor da cruz. Para eles a cruz não tem nenhum valor.

· Maior cidade na Ásia Menor. Cidade rica (Alexandria e Antioquia).

· Sua população no final do século I somava cerca de 600 mil habitantes.

· Porto para mar Egeu e Mediterrâneo.

· Historiadores a chamam de “luz da Ásia”.

· Na cidade estavam os templos de Diana e Artemis [fig.1], deusas da fertilidade e da fecundidade (O templo de Diana foi uma das sete maravilhas do mundo antigo). · Em Éfeso o culto ao imperador, por ser centro comercial, recebia inúmeros adeptos [2] .

Fig.1: Escultura da deusa Ártemis. Foto: mubus7 / Shutterstock.com

· Segundo Bortolini, Éfeso foi a cidade do discípulo amado e berço do evangelho de João.

· Na cidade havia uma comunidade do discípulo de João Batista (At 19,1-7).

Diante da pregação cristã os produtores de imagens, artesãos, adoradores de divindades sentiram certo impacto (At 19,24-40).

· A comunidade era atuante, mas João afirma que ela abandonou o primeiro amor.

Fundador: não sabemos quem fundou a comunidade, mas temos relatos da passagem de Áquila e Prisca, Paulo. Na sua segunda viagem Paulo tenha passado pela cidade (At 18,19-21). Na terceira viagem teria ficado por lá uns três meses (At 19,1-21).



Teologia:

1. Jesus segura as sete estrelas e anda em meio aos sete candelabros.

2. Amor da juventude (cf. Jr 2,2; Os 11,1-2).

Vinda de Jesus como algo extraordinário.


2) Esmirna:

· Cidade portuária, junto ao mar Egeu, 50 km ao norte de Éfeso.

· Por parte dos judeus a comunidade sofre: perseguição, hostilidade.

· Cidade edificada por Alexandre Magno, em 330 a.C. Chegou a ser importante porto e centro comercial rico entre Éfeso e Pérgamo.

· Sua patrona era a deusa Cibele (Mesters e Orofino [3]).


· Em 133 a.C a cidade cai diante de Roma, mas mantém o status de cidade livre.

· Em 95 a.C a cidade recebe um templo dedicado à deusa Roma.

· Em 26 d.C a cidade recebe um novo templo, dessa vez dedicado ao imperador Tibério e ao senado romano. Para Roma, Esmirna é chamada “cidade fiel”, por sua fidelidade às normas imperiais.

· Nas cartas de Inácio de Antioquia (110 d.C.), a comunidade de Esmirna é conhecida e elogiada por sua fidelidade à Palavra de Deus.

· O Mártir São Policarpo foi bispo de Esmirna na primeira metade do segundo século depois de Cristo. Em 155, aos 85 anos, ele foi preso e condenado à fogueira.

No livro:

· Cidade recebe elogios, incluindo escritos do epíscopo Inácio de Antioquia (cerca de 110 d.C)

· Conhecida por sua fidelidade à Palavra de Deus.

· Recebe perseguição, por sua fidelidade.

· Merecedora da coroa prometida por Jesus.

· Coroa, símbolo oferecido aos fiéis, por dez dias.

· Nota-se uma linguagem olímpica segundo os jogos olímpicos realizados a cada quatro anos.

· Uma comunidade fraca por causa da perseguição imperial.

· Sua fidelidade é causa de receber louros da parte de Jesus: “Não tenhas medo” (v. 9).

· O bispo Policarpo, de Esmirna, martirizado em 155 d.C. aos 85 anos, tinha 25 a 30 anos, quando esta carta era lida no interior das comunidades de Esmirna.

Três palavras importantes:

Tribulação: situação de sofrimento e de resistência no interior da comunidade.

Pobreza: indigência

Blasfêmia: direcionada aos grupos de falsos judeus.

Morte, palavra encontrada três vezes.

A sinagoga de satanás:

· Conflito entre judeus e judeu-cristãos (2,9; 3,9). Os fariseus fecham-se na decisão de por um ponto final ao crescimento da Boa Nova.

· O termo reflete o grau de conflito (fariseus x cristãos).

3) Pérgamo:

· Capital do reino de Mísia, edificada em torno da montanha.

· A comunidade tem sua sede onde está o trono do satanás (trono do imperador). Na cidade foi construído um grande templo ao imperador César, em uma alta colina. A cidade era famosa por seu culto a Augusto Cezar e à deusa Roma.

· Na cidade está o templo ao deus Zeus [Fig. 3], principal divindade da religião grega [4].

Centro produtor de couro de carneiro preparado para a escrita (pergaminho), principal renda na cidade.

Fig. 3: Zeus. Cabeça colossal de mármore, romana, século II, Museu Britânico
Na vida de cada dia, a comunidade encontra- se inundada por divindades que mais faziam propagada do império (um estilo de vida): carne sacrificada aos ídolos; durante festa e jogos populares; as carnes sacrificadas às vezes eram distribuídas ao povo (o problema vivenciado em Corinto (1Cor 8-10). Eis um conflito sério no interior da comunidade de Pérgamo (2,14) e Tiatira (2,20). Os conselhos de João apelam para a conversão da comunidade. A pedrinha branca era utilizada na ocasião de um solenidade pondo sobre ela o nome dos convidados: “o nome novo ninguém conhece ...”.

· Entre cristãos alguns grupos optam pela sedução dos ídolos (adultério e prostituição).

· A religião do império era utilizada como deus do império; religião como sinal de unidade nacional.

· O problema da prostituição foi um dos temas abordados por Paulo (cf. 1Cor 8,1-13; Rom 14,1-4).

· A vinda de Jesus é vista como algo normal, um apelo de Deus que existe nos acontecimentos da história. Uma fé forte e esclarecida consegue compreender.

· Não se sabe quem teria sido o fundador da comunidade. Nota-se que Paulo por três anos esteve na região (At 19,8-10); ou talvez tenham chegado por meio das atividades devocionais.

· Espadas de dois cumes, símbolo de discernimento (Ap 19,15; Hb 4,12-13).

4) Tiatira:

· Cidade pequena e sem grande importância no cenário econômico.

· Tem como origem uma antiga colônia militar vinda da Macedônia, na Grécia.

· Tem obras boas, mas abre campo para a atuação de Jezabel. Não se sabe se há ou não ligação com Jezabel, esposa de Acab que, no passado tinha tentado a prática da idolatria (cf. 1Rs 16,31-32). Na carta Jezabel recebe um severo julgamento.

· Na carta aos Coríntios é possível perceber possíveis conflitos vividos pela comunidade (1Cor 8,10-13; 10,27-29; Rm 14,1-6). Crítica sobre a idolatria ao império.

· Centro comercial e industrial na fabricação de tecidos.

· Produtora de tecidos (Cf. Lidia em At 16,14).

· Na comunidade há amor, fé, serviço, perseverança.

Apolo era a divindade principal. Apolo era o deus sol. Na cidade também ocorre o culto ao imperador. A carta alerta para uma tomada de posição frente à prostituição e adultério, frente ao império.

· Carnes sacrificadas aos deuses.

· É permitido comer ou não?

· Comer da carne era prostituição ou adultério.

· Jezabel, profetisa que leva ao abismo de satanás (Ap 2,24).


1. Momentos difíceis,

2. Tensões internas,

3. Possibilidade de servir “alguns deuses”.


· Possivelmente a comunidade teve como fundador grupos de tecelões (At 18,3).


5) Sardes:

· Lembrança do passado,

· Comunidade está “morta”

· Antiga capital do reino da Lídia.

· No século VI a.C, na cidade foram cunhadas as primeiras moedas por ordem do rei Creso.

· A cidade sofreu inúmeras invasões por parte de outros povos.

· Importante centro na produção de lã, tecidos.

· Em 17 d.C foi destruída por um terremoto e reconstruída por ordem de Tibério (14 a.C. – 37 d.C), motivo de adotar na cidade o culto ao imperador.

· Na cidade vivia uma das mais antigas colônias judaicas. A sinagoga de Sardes foi construída na época do domínio Persa, V a.C.

· Judeus viviam em clima da polis grega.


A comunidade está morta. Vive de aparência. Pensam estar vivos, mas estão mortos. A espera da volta de Cristo: quando? Como? Para muitos a volta de Cristo se daria entre duas ou três gerações inaugurando, definitivamente, novos céus e nova terra (1Ts 4,16-17; Mc 9,1)


6) Filadelfia:

· Pequena cidade, próxima da rota comercial entre Sardes a Colossos.

· Cidade muitas vezes atingida por terremotos,

· Fundada em 140 a.C pelo rei Átalo Filadelfo, rei de Pérgamo.

· Planície fértil e importante produtora de produtos agrícolas.

· Cidade de muitos templos.

· Imperadores como Tibério e Calígula foram cultuados como deuses.

· Na comunidade é evidente o conflito entre judeus e judeu-cristãos.

· Crescimento do judaísmo rabínico, após o ano 70, com a destruição do templo e expulsão das sinagogas.

· Não se tem notícias sobre o fundador da comunidade.

Diante da perseguição dos judeus fariseus, as comunidades acabarão descobrindo o amor de Deus, a partir da conversão (Ap 3,9). Jesus vem como gratuidade e amor.

Imagens de Jesus nas cartas:

1. Aquele que segura as sete estrelas (Éfeso)

2. Primeiro e último (Esmirna)

3. Aquele que tem a espada afiada (Pérgamo)

4. Filhos de Deus com olhos de chama de fogo (Tiatira)

5. Aquele que tem sete espíritos (Sardes)

6. Aquele que é Santo e Verdadeiro (Filadélfia)

7. Aquele que é testemunha fiel e verdadeira (Laodicéia)

7) Laodiceia:

· Cidade fundada em 250 a.C. por Antíoco II, rei de Antioquia.

· Cidade mais rica da região e conhecida por sua forte transação financeira, linho, e algodão, ouro e produtos farmacêuticos.

· Centro oftalmológico desenvolvido. Fato que favorecia a presença de inúmeros estrangeiros.

· No 61 a.C a cidade foi destruída por um terremoto.

· Os judeus, no ano 45 a.C, passam a ter privilégios segundo um acerto com o governo de Júlio César (44 a 48 a.C).

Considerada superior às outras comunidades, por ser rica e famosa, mas infeliz, miserável e pobre. Não se tem informes sobre seus fundadores.

Resumindo:

· Comunidades proféticas

· Comunidades de resistência diante do sistema opressor

· Enfrentar conflitos: culto imperial, inúmeras religiões, inúmeras doutrinas e pregadores, rivalidades entre grupos infiltrados, tentação de algumas comunidades ficarem de “bem” com o império. A besta atrai. Soberba de algumas comunidades, dificuldade em perseverar diante das tribulações, por que sofrer se podemos estar de bem com a Pax Romana.



Fig. 4: Deusa Diana, que teria transformado em veado o caçador Acteão. Louvre, Paris.

Fig. 6: Deusa Cibele, protetora dos exércitos e arrasadora das cidades. M-Sacerdotes rendiam-lhe culto em meados de 192 a.C.

[1] “Seita heterodoxa judeu-cristã, que se transformou em uma das muitas formas de gnosticismos nos fins do século I e no começo do II. Renegava totalmente o Antigo Testamento. Proliferou em Éfeso, nos tempos dos apóstolos. João, no Apocalipse dirige-se aos efésios dizendo `tens de bom o detestares os nicolaítas, que também eu detesto` (2,6). Doutrina semelhante aos erros já profligados por Paulo, nas suas cartas do cativeiro, sobretudo Colossences (2,6-8), e que prenuncia as especulações gnósticas do século II. Uma das suas características consistia em tolerar alguns compromissos com os cultos pagãos, tomando parte nos banquetes sagrados que eram `comer carne sacrificadas aos ídolos`. Em Pérgamo (2,15), contavam também os nicolaítas com vários adeptos, assim como Tiatira onde se dava algo especial” (Cf. SCHELINGER, Hugo e PORTO, Humberto, Dicionário Enciclopédico das Religiões, verbete: nicolaítas.


[2] Ártemis, deusa grega, ou Diana, como era conhecida entre os romanos, divindade responsável pelas atividades da caça, é representada como uma imagem lunar arisca e selvagem, constantemente seguida de perto por feras selvagens, especialmente por cães ou leões. Ela traz sempre consigo, no abrigo de suas mãos, um arco dourado, nos ombros um coldre de setas, e pode ser vista trajando uma túnica de tamanho curto.

Dizem que quando ela ainda era uma criança, Zeus a questionou sobre seu maior desejo para seu aniversário, e ela lhe pediu, sem hesitar, que pudesse circular livremente pelas matas, ao lado dos animais ferozes, dispensada para sempre da obrigação de se casar. O pai imediatamente realizou seu sonho.


[3] Nos tempos dos gregos e romanos, Cibele era chamada de A Mãe dos Deuses. O grande Sófocles a chamava de a Mãe de Tudo. Seu culto teve início na Anatólia Ocidental e na Frigia, onde era conhecida como "A Senhora do Monte Ida". A montanha, a caverna, os pilares de rocha e rochedo, são locais luminosos, de uma vitalidade pré-orgânica, que foram vivenciados em participação mística com a Grande Mãe, na qualidade de trono, assento, moradia, e como encarnação da própria Deusa.

Os romanos decoravam suas estátuas com rosas. O culto de Cibele tornou-se tão popular que o senado romano, a despeito de sua política permanente de tolerância religiosa, se vira obrigado, em defesa do próprio Estado, a por cabo à observância dos rituais da deusa-mãe.


[4] Zeus é o principal deus da mitologia grega. Era considerado, na Grécia Antiga, como o deus dos deuses. O nome Zeus em grego antigo significava “rei divino”.

Bibliografia:

FERNÁNDEZ, Daniel Godoy, Apocalipse 2 e 3: comunidades proféticas de resistência e martirizadas. In: RIBLA, 59, pp. 106-118.

MESTERS, Carlos e OROFINO, Francisco, Apocalipse de Joao: esperança, coragem e alegria. São Paulo, Paulus, 2002.

MARGUERAT, Daniel, Novo Testamento: história, escritura e teologia. São Paulo, Loyola, 2009, p. 493-514.

TUŇÍ, Josep-Oriol e ALEGRE, Xavier, Escritos Joaninos e Cartas Católicas. São Paulo, 2007, p. 193-260.

COLLINS, John. J, A imaginação Apocalíptica: uma introdução à literatura apocalíptica judaica. São Paulo, Paulus, 2010, p. 365-396.


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Notas/ITESP – Apocalipse - uso exclusivo – Frizzo

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Professor Padre Antonio Carlos Frizzo

Possuo doutorado em Teologia Bíblica pela PUC-Rio (2009). Sou professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP- SP) e assessoro cursos no Centro Bíblico Verbo, SP.

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