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Apocalipse 9 | Uma releitura do Êxodo, no Apocalipse


Herodim, Vista geral da fortaleza,parte superior. Creditos: Frizzo

Os temas citados no livro do êxodo fundamentam Ap 9-10. As trombetas – sinal da intervenção divina – anunciam a ação de Deus em prol do mundo. As pragas, citadas na saga do Egito (Ex 9,24), manifestam gestos divinos em prol do seu povo escolhido. O mal que atrapalha deve ser destruído. Trata-se de uma ação escatológica no interior da história. O triunfo final pertence a Deus. Semelhante ao texto de Is 14,12, as ações divinas tem formas concretas.


Primeira parte (vv. 1-12):

9:1 O quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela caída do céu na terra. E foi-lhe dada a chave do poço do abismo.

2. Ela abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço como fumaça de grande fornalha, e, com a fumaceira saída do poço, escureceu-se o sol e o ar.

3. Também da fumaça saíram gafanhotos para a terra; e foi-lhes dado poder como o que têm os escorpiões da terra,

4. e foi-lhes dito que não causassem dano à erva da terra, nem a qualquer coisa verde, nem a árvore alguma e tão-somente aos homens que não têm o selo de Deus sobre a fronte.

5. Foi-lhes também dado, não que os matassem, e sim que os atormentassem durante cinco meses. E o seu tormento era como tormento de escorpião quando fere alguém.

6. Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a acharão; também terão ardente desejo de morrer, mas a morte fugirá deles.

7. O aspecto dos gafanhotos era semelhante a cavalos preparados para a peleja; na sua cabeça havia como que coroas parecendo de ouro; e o seu rosto era como rosto de homem;

8. tinham também cabelos, como cabelos de mulher; os seus dentes, como dentes de leão;

9. tinham couraças, como couraças de ferro; o barulho que as suas asas faziam era como o barulho de carros de muitos cavalos, quando correm à peleja;

10. tinham ainda cauda, como escorpiões, e ferrão; na cauda tinham poder para causar dano aos homens, por cinco meses;

11. e tinham sobre eles, como seu rei, o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom, e em grego, Apoliom.

12. O primeiro ai passou. Eis que, depois destas coisas, vêm ainda dois ais.


A quinta trombeta entre em ação após o primeiro “ai”. O termo, que significa desgraça, dificuldade, sofrimento, grandes desafios, sofre inspiração do livro do profeta Jl 1-12 e na pregação de Jr 51,27. Os gafanhotos sempre representaram destruição, fome, morte e, sobretudo, ocupação do território pelo exército inimigo:

· Coroa de ouro,

· Rosto humano,

· Preparados para a guerra,

· Couraça de ferro sobre o peito,

· Sem compaixão e violência sanguinária contra o inimigo (9,7.9).

O rei dos gafanhotos tem um nome: Exterminador (9,11). Os protegidos – portadores do sinal de Deus – não verão a morte (9,5).

Nota-se que a origem do mal tem origem na fumaça que sobre o abismo (9,2). A escuridão faz surgir gafanhotos (9,3), mas essa terrível praga tem seus poderes limitados (vv. 4-5):

“e foi-lhes dito que não causassem dano à erva da terra, nem a qualquer coisa verde, nem a árvore alguma e tão-somente aos homens que não têm o selo de Deus sobre a fronte. Foi-lhes também dado, não que os matassem, e sim que os atormentassem durante cinco meses. E o seu tormento era como tormento de escorpião quando fere alguém”.

Deus não permite uma destruição total. Apesar das dificuldades, o senhorio da história está nas mãos divinas.

O inspirador de todo o mal tem um nome: o nome dele em hebraico é Abaddon (sinônimo de inferno), e em grego o nome é Apollyon – (o destruidor). “Temos, assim, a dupla Morte-inferno.

Os cinco meses (espaço de 150 dias) determinam o tempo da ação dos gafanhotos (9,5). Os 150 dias assemelham-se às declarações presentes no livro da Sb 11,20; 12,2) ou o período das enchentes que dura “cento e cinquenta dias” (Gn 7,24). Alguns acenam para a data fixada para a vinda do Messias. Trata-se de uma semana cósmica. A vinda do messias está fixada para o sexto milênio. Possivelmente os cinco meses representem tempo determinado para experimentar sofrimento, dificuldade. Mas não o fim.


Sexta trombeta e o segundo “ai”. (vv13-21).

Após a sexta trombeta, diga-se de passagem, acontecem fatos totalmente negativos por meio da ação dos quatro anjos presos e toda ação culmina com o segundo “ai” em 11,14. Toda esta longa sequência textual pode ser dividida em três unidades literárias e serem intituladas nos seguintes termos: a) a cavalaria infernal (9,13-21); b) o juramento do anjo e livro aberto (10,1-11); c) as duas testemunhas (11,1-13).

O mal vence provisoriamente (9,13-21).

13. O sexto anjo tocou a trombeta, e ouvi uma voz procedente dos quatro ângulos do altar de ouro que se encontra na presença de Deus,

14. dizendo ao sexto anjo, o mesmo que tem a trombeta: Solta os quatro anjos que se encontram atados junto ao grande rio Eufrates.

15. Foram, então, soltos os quatro anjos que se achavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano, para que matassem a terça parte dos homens.

16. O número dos exércitos da cavalaria era de vinte mil vezes dez milhares; eu ouvi o seu número.

17. Assim, nesta visão, contemplei que os cavalos e os seus cavaleiros tinham couraças cor de fogo, de jacinto e de enxofre. A cabeça dos cavalos era como cabeça de leão, e de sua boca saía fogo, fumaça e enxofre.

18. Por meio destes três flagelos, a saber, pelo fogo, pela fumaça e pelo enxofre que saíam da sua boca, foi morta a terça parte dos homens;

19. pois a força dos cavalos estava na sua boca e na sua cauda, porquanto a sua cauda se parecia com serpentes, e tinha cabeça, e com ela causavam dano.

20. Os outros homens, aqueles que não foram mortos por esses flagelos, não se arrependeram das obras das suas mãos, deixando de adorar os demônios e os ídolos de ouro, de prata, de cobre, de pedra e de pau, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar;

21. nem ainda se arrependeram dos seus assassínios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos.

O livro nos coloca em contato com as forças militares e as descreve com toda ênfase. As forças provem de uma região representando crueldade: do Eufrates (v. 14). Na imaginação de nossos autores, tais forças entram em ação a partir de uma voz de comando. Nada é desordenado. Existe um plano estabelecido para por fim aos habitantes da terra. Demonstram toda a incompreensibilidade das forças do mal:

· Número espantoso

· Ações maléficas

· Cabeças e bocas letais (vv. 18.19)

· Outros que não foram mortos, nem sequer ousaram renunciar de suas vidas devassas: adorar demônios, ídolos de ouro e prata, bronze, pedra madeira incapazes de salvar. Tal grupo é formado de homicidas, mágicos, prostitutos e ladrões (vv. 20-21).

Os cavalos lançam cores estranhas: fogo, fumaça e enxofre, que parecem refletir-se nas cores das couraças dos cavaleiros: vermelho (fogo//violência), jacinto (azul-escuro - orgulho), cor de enxofre (morte). O realce está para a ausência da cor branca, inexistente. O que destaca, ainda mais, os tempos de dificuldades. Não há referência alguma à humanidade, relações de paz. As cores buscam realçar tempos de flagelo e guerra. “Para João a guerra representa o pior dos males”. O que mostra que o autor passa do plano simbólico para o plano real. É nesta realidade de horror que irá acontecer a intervenção divina.

Os relatos das inúmeras dificuldades querem despertar as comunidades para a realidade difícil que estavam vivendo. Por meios dos símbolos, muitas vezes incompreensíveis, o livro é um convite a contemplar a realidade cruel que cercava as comunidades. Podemos bem expressar e escrever sobre uma dificuldade social, mas experimentá-la no corpo é mais cruel e violento ainda. A Bíblia não esconde nem racionaliza a dureza dos fatos. Aquilo que estava acontecendo no império romano e continua acontecendo até hoje no império neoliberal, era e é muito pior do que aquilo que se descreve na quinta e sexta praga. O apocalipse quer é tornar a realidade transparente e levar as comunidades a ver em tudo que acontece de ruim um apelo de Deus à conversão e o começo de algo maior e melhor.

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Notas ITESP - Curso Apocalipse – Frizzo

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Professor Padre Antonio Carlos Frizzo

Possuo doutorado em Teologia Bíblica pela PUC-Rio (2009). Sou professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP- SP) e assessoro cursos no Centro Bíblico Verbo, SP.

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