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A ASTÚCIA DO POBRE NO CONFLITO COM O RICO: O ENSINO DE SIRÁCIDA 13.


Waldemar Rossi | foto: reprodução da internet

- Uma homenagem à Waldemar Rossi.


Resumo

A atividade profética não terminou com o exílio babilônico, em 587 a.C. Nesse ano, Nabucodonosor comandou pessoalmente a destruição da cidade de Jerusalém. Pela primeira vez, o reino do Sul deparou-se com uma força imperialista às suas portas. Pessoas, grupos sociais, espaços públicos, instituições e tradições culturais – escritas ou orais - ruíram-se. A profecia, porém, não ficou alijada. Cremos que ela continuou por meio de novas vozes, pessoas, grupos. Adquiriu novos contornos em novos ambientes. Eis a temática central deste artigo ao apresentar uma reflexão sobre o capítulo 13 do livro de Sirácida ou Eclesiástico, na ótica do comportamento entre o pobre e o rico. Em nossa hermenêutica, apostamos que temos nessas páginas bíblicas uma profecia. Uma profecia de cunho sapiencial que se espalhou em outras narrativas, na época pós-exílica (Sb, Sl, Jó, Ct e Pr). Ela adquire novos contornos entre acrósticos, poemas, provérbios e sentenças. Num primeiro momento, buscamos contextualizar a época do surgimento do livro de Sirácida, para em seguida, analisar métricas, antíteses e propostas sociais da narrativa. Diante do risco em que o mundo, o planeta se encontra, recompor o tecido social só terá validade se considerarmos os grupos desfavorecidos, os empobrecidos pelo sistema voraz da sociedade de consumo. De outra maneira, nosso pensar é fratricida e cúmplice no assassinato do pobre.


Palavras-chaves: Sirácida ou Eclesiástico, rico, pobre, profecia, Palestina no período selêucida.


Abstract

The prophetical activity did not end with the babilonical exile, in 587 b.C. In that year, Nebuchadnezzar, in person, commanded the destruction of the city of Jerusalem. For the first time, the South kingdom faced an imperialist power at its doors. People, social groups, public spaces, institutions and cultural traditions - written or oral - were ruined. The prophecy, however, was not abandoned. We believe that it continued through new voices, people, groups. It acquired new outlines in new environments. That is the focal point of this article in presenting a reflection on the chapter 13 of the book of Sirach or Book of Ecclesiasticus, from the optics of the behaviour dynamics between the poor and the rich. In our hermeneutics we consider that we have, in these biblical pages, a prophecy. A prophecy of wise nature that was spread in other narratives, in the post-exile era (Ws, Psalm, Job, Song, and Prov). It acquires new outlines among acrostics, poems, proverbs and sentences. First, we aim to contextualize the time of the appearance of the book of Sirach, and then, to analyze metrics, antitheses and social propositions of the narrative. Considering the peril that the world finds itself in, itwill only be validto recompose the social tissue if we consider the disadvantaged groups, the impoverished by the voracious system of the consumer society. If they differ from that, our thoughts are fratricidal and accomplices of the murder of the poor.


Key words: Sirach or Ecclesiasticus, rich, poor, prophecy, Palestine in the Seleucid era.


INTRODUÇÃO

Numa manhã ensolarada, no mês de novembro, em São Paulo, em companhia dos amigos e militantes da Pastoral Operária, Antonio Celso de Oliveira e sua companheira Ozani Martiniano de Oliveira, chegamos, diria que sorrateiramente, quase sem avisar, à casa do nosso "mestre" – assim, gostávamos de chamá-lo, com carinho - Waldemar Rossi [1].

Batemos palmas no portão, e logo sua companheira Célia olhou, pelo longo corredor que separa o portão de entrada da porta de acesso à cozinha, com um largo sorriso. Deu para ouvir nitidamente quando disse "vão entrando gente. A casa é de vocês". Celsinho, ex-metalúrgico e antigo companheiro dos tempos da Oposição Sindical, sem titubear já respondeu: "Já tamo dentro. Peão, nem bate no portão e já corre pra frente da porta da cozinha". Sorrimos muito.

Rossi nos recebeu sentado e, assim permaneceu durante toda aquela fraternal conversa. Já sentia o peso da doença. Seus movimentos eram lentos e realizados com acentuada dificuldade. Recordo-me da posição das cadeiras. Seu banco encostado na parede da casa vizinha, ficava bem de frente para a porta de acesso da cozinha. Nós – eu e Celso - um pouco mais à direita. Ozani bem ao centro e Célia à esquerda. Formamos um semicírculo ao redor do Waldemar. Uma autêntica roda de conversa ao redor do mestre. Afinal, ninguém se torna mestre sem exercitar o saber escutar. Éramos verdadeiros discípulos, ávidos para receber conselhos e lições do velho mestre.

Permanecemos horas dialogando. Nossas conversas ziguezagueavam. Falamos de tudo um pouco, até mesmo da gravidade do acometimento da doença. Quando o assunto girou sobre a crise brasileira, cada qual expunha seu ponto de vista. Sobraram acentos sobre os erros e acertos da esquerda brasileira. O futuro do movimento sindical não poderia ficar alijado da prosa, quando alguém está diante de um verdadeiro monumento do sindicalismo brasileiro. Waldemar Rossi teve toda sua vida dedicada à causa operária. Quando a conversa girou sobre o movimento sindical, Rossi fez questão de acenar para o texto de Eclesiástico. "Nesse livro temos uma verdadeira pérola”, para entender o momento atual da política nacional, declarou. Referiu-se ao livro do Eclesiástico, capítulo 13. "Lá se diz que a panela de barro se quebra ao se chocar com a panela de ferro. Quando o rico procura o pobre é por puro interesse", disse Rossi com uma sarcástica piscadinha de olhos. "É a partir dos pobres que devemos pensar qualquer análise da conjuntura nacional". Ao ouvir o breve comentário de Rossi sobre o sábio do Antigo Testamento de nome Sirácida, decidi me debruçar sobre o incômodo capítulo 13.

Rossi, na sua posição de ancião e bom conselheiro, nos inquietou e, de certo modo nos emocionou, ao manifestar sua preocupação com a formação da nova geração. Disse algo nestes termos:

"Temos que destacar a obrigatoriedade de envolver a juventude no atual momento político nacional. Há de se criar um jeito novo de trazê-la para a grande corrente que é a de pensar e agir para construir um país mais igual. São os jovens as grandes vítimas do péssimo nível educacional, da dificuldade em encontrar o primeiro emprego e a principal vítima da onda de violência que campeia pelo país.

Gente, para mim que já vi muita coisa neste nosso Brasil, considerando as lutas que realizamos, temos que apostar nesta nova geração. Não sei se vocês se lembram daquele filme do Chaplin. Um filme do Charles Chaplin intitulado "As luzes da Ribalta". A trama envolve uma bailarina e um palhaço. O palhaço, encenado por Chaplin, procura ajudar a bailarina a sair de seu estado depressivo. E, ele consegue. A música é muito bonita. E mais ou menos assim:

Vidas que se acabam a sorrir Luzes que se apagam, nada mais É sonhar em vão, tentar aos outros iludir Se o que se foi pra nós Não voltará jamais
Para que chorar o que passou Lamentar perdidas ilusões? Se o ideal que sempre nos acalentou Renascerá em outros corações
Eu creio que é possível. Aposto que um futuro melhor podemos construir. Tenho muita esperança e sigo apostando nisso.”

Nossa conversa aconteceu debaixo do pé de uva carregado de cachos verdes marcados pela estação primaveril. Parecíamos reeditar a profecia de Miqueias ao propor tempos de paz à comunidade ao regressar do exílio babilônico": Cada um poderá sentar-se debaixo de sua vinha e de sua figueira, sem ser perturbado, pois assim disse a boca de Javé dos Exércitos" (Mq 4,4).

Ao líder operário Waldemar e à sua companheira Célia Rossi dedico a reflexão do sábio Jesus, filho de Sirac, exposta no capítulo 13. As inquietações destes dois sábios se cruzam, apesar dos dois mil e trezentos anos que separam um do outro. Sonhos que não se cruzam num vazio meramente especulativo. Mas no chão, nas angústias, nos avanços e tropeços dos pobres. Mudanças que só são possíveis no envolvimento dos pobres como sujeitos, artífices de um mundo igualitário e sustentável.


1. A JUDÁ SOB O DOMÍNIO GREGO

Impérios se revezaram no controle militar e comercial de Israel. Um estado independente, no teor da palavra, vê seu final diante da presença imperialista das forças babilônicas. Nas duas incursões ocorridas nos anos de 597 e 587 a.C., o imperador Nabucodonosor, em pessoa, comandou as forças babilônicas que assolaram esta pequena e estratégica – de suma importância no cenário geopolítico - região. Viram seus projetos ruírem, diante de seus olhos, grupos de sacerdotes, profetas, instâncias de poder ligadas ao templo de Jerusalém, comerciantes pequenos ou grandes proprietários de terra. Por meio de duas grandes incursões militares, o poderio bélico babilônico se impôs. Para muitos a ruína do estado e o domínio babilônico seriam permanentes.

Mas em meados do ano 536 a.C., a Babilônia caiu frente ao novo império que se impõe na região. As forças do rei Ciro (550-530), rei dos persas, entram na capital Babel, legitimando um novo imperador na região. Certamente, após a morte de Nabucodonosor, ocorrida no ano 562 a.C., sucessivas revoltas palacianas e constantes revoltas internas contribuíram para a instabilidade governamental do vasto império. Prova que Evil-Merodac, herdeiro legítimo ao trono, governou apenas dois anos (2Rs 25,27-30). Grupos sacerdotais se dividem em apoiar ou não uma possível reforma religiosa empreendida por Nabonides, nos anos de 585 a.C., ao propor culto ao Deus Sim, como divindade imperial em detrimento ao Deus Marduk. Tal desentendimento entre a elite sacerdotal acelerou o colapso administrativo do Estado.

Em 538, um possível edito com as ordens do rei Ciro, se faz conhecer em várias regiões do império, possibilitando o regresso dos exilados (Esd 1,1-4; 6,3-5). Será sob as ordens de Dario I (521-486), sucessor de Cambises, filho de Ciro (530-522), que os povos dominados pelo antigo império babilônico receberão permissão para regressarem às suas terras de origem. Reacende a esperança para alguns grupos. Uma teologia oficial, de cunho monoteísta, centralizada no templo da cidade santa, Jerusalém, irá, de modo violento, se consagrar. “Iahweh é o único Deus, tanto no alto do céu, como cá embaixo, na terra. Não existe outro!” (Dt 4,39). Oportuno observar que nosso autor, Jesus, bem Sirach, será um ferrenho defensor dessa teologia oficial, que em seu tempo, será utilizada como uma indispensável ferramenta para salvaguardar a identidade religiosa (ALBERTZ, 1999, 574; NAKANOSE, 2012, p. 3).

Há novas luzes e ideias aos grupos exilados que retornam a Palestina. Outros optam por permanecerem na capital Babel. Para alguns discípulos da escola do profeta Isaías – dêutero-Isaías - a pessoa do novo imperador, confunde-se a imagem no messias esperado (Is 45,1-7), do “pastor” (44,28), do “defensor de la justiça” (41,2) e do “amigo de Javé” (48,14). Para os deuteronomistas que trabalharam a profecia de Jeremias, todo o sucesso futuro não depende de qualquer esforço humano, mas da soberania da ação libertadora de Iahweh em prol do seu povo eleito (Jr 27,5; 43,10). Entre os povos exilados na capital Babel se encontra um conglomerado de grupos apegados à tradição judaica (2Rs 24,13,17). Imposições de taxas reguladoras de impostos e proibição de reorganizar os exércitos passam a predominar nas novas estratégias desse novo império que dominará toda a região por dois séculos. A estratégia de dividir o vasto reino em satrapias administrativas favorece o novo estilo de dominação por meio de uma burocracia e sistema de comunicação eficientes e constante presença do exército. No reinado de Dario III (336-331), o vasto império não consegue superar conflitos internos e verá as tropas de Alexandre Magno (356-323), novo imperador helênico, conquistar, palmo a palmo, campo a campo os territórios e fortalezas persas.

“Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu” escreverá o autor do livro do Eclesiastes (Ecl 3,1). Mais que mera afirmação resignatária, as palavras do sábio Coélet podem favorecer o caráter provisional de todo império. Até o ano de sua morte, ocorrida na Babilônia, em 323, com a idade 33 anos, as expedições militares do império helênico se apresentarão como únicas e soberanas em todo Oriente. Guerra após guerra, destruições seguidas por destruições, os helenistas se impõem por meio de seus treinados exércitos. O desejo de dominar se apresenta de modo insaciável.

Reinos são completamente subjugados. A cultura helênica se impõe com força avassaladora. Os hábitos dos dominadores passam a ser imitados entre os dominados. Com a morte repentina de Alexandre Magno no ano 323 a.C. e sem deixar um legítimo herdeiro, o vasto império é divido entre seus súditos. Seus generais, em pouco tempo, cada um a seu modo, buscarão poder e prestígio. Por duas décadas (321-301), os chamados diácodos (sucessores), travam constantes batalhas, no desejo de exercer controle sobre os antigos domínios. Se nos deixarmos guiar pelos informes de Flávio Josefo, notamos que entre os anos 320 a 301, a Palestina será conquistada quatro vezes por tropas a serviço de Ptolomeu I. No ano 301, Selêucidas, Ptolomeus e Antíocos, ex-generais de Alexandre, selam a divisão do legado do antigo imperador. Judá é parte governada, junto com o Egito, pela dinastia dos Ptolomeus, sendo seu primeiro governo liderado por Ptolomeu I Soter (323-283 a.C.). Até o ano de 198 a.C. a Judeia será governada pela dinastia ptolomaica

Nesta fase, frente ao regime administrativo do novo império, Judá continua sendo administrado sob um regime teocrático. O Sumo sacerdote, sediado no Templo de Jerusalém, exerce plenos poderes na esfera religiosa. Religiosa apenas, pois, ávido pelo controle geopolítico da região – Síria Meridional, Palestina e Fenícia – um oficial grego controla todo o sistema de arrecadação de impostos, reduzindo, de modo significativo, o poder da elite sacerdotal. A instalação de uma gerousia pelos ptolomeus elevará ainda mais o clima de divisão interna. O grau de destaque fica nas mãos do sumo sacerdote; no nível médio estão os que formam a gerousia: o conselho de anciãos, o colégio de sacerdotes e, no nível mais baixo, a assembleia do povo, no grego conhecida como ekklesia, demos, assembleia. Pessoas influentes atuavam na esfera comercial. Não é difícil imaginar que uma vez alinhados aos interesses gregos, pessoas bem situadas na sociedade palestinense viram solidificados seus desejos de gozar e usufruir da sua cidadania grega. Aos olhos de um cidadão comum, parecia que a província de Judá recuperava, enfim, seu tempo de glória como havia alcançado durante a antiga monarquia, antes do trágico exílio babilônico, ocorrido em 587 a.C.

Os projetos de Ptolomeu I Soter – o "Salvador", como gostava de impressionar seus subalternos - ecoarão profundamente na vida dos judeus. Desde o ano de sua morte, ocorrida em 283 a.C. e nas próximas oito décadas, o crescimento populacional de judeus nas periferias da capital do Egito, Alexandria, tornar-se-á significativo. Desde sua primeira e ardilosa entrada em Jerusalém, ocorrida em um dia de sábado, quando passou a conquistar a cidade, muitos judeus foram deportados para os trabalhos forçados em setores da agricultura e da mineração. Num total de cinco bairros existentes, em Alexandria, dois serão ocupados por judeus, considerados livres, cidadãos e plenos em direitos no exercício da democracia que constituíram também sua politeuma (MARQUES, 2018, p. 4). Gozavam de certa autonomia no tocante aos hábitos religiosos, baseados na Lei Mosaica e nos comportamentos éticos pautados pela Tanakh – livros da lei, dos profetas e dos escritos. Historiadores acenam para a existência de três sinagogas em Alexandria, edificadas para um círculo de aproximadamente 150 mil pessoas, numa população oscilando em torno de 600 mil habitantes. Especialmente sua capital, na época, Alexandria, sempre foi um lugar seguro para os povos da região. Lugar de refúgio, em certas ocasiões, e possibilidade de garantir condições básicas para viver, morar e trabalhar. Não é por acidente que a cidade de Alexandria será o palco do movimento cultural que resultará na primeira tradução dos textos hebraicos para o grego. A Septuaginta (LXX) veio para responder aos apelos das comunidades judias fortemente inseridas na dinâmica do estilo grego de viver ocasionado, em parte, por décadas de migração forçada.

Oportuno observar que as estratégias postas em prática, no tocante aos judeus, não toca, em momento algum, o aspecto religioso. Judá continua sendo um Estado semi-independente. Chega a emitir sua própria moeda com a inscrição "Yehud", guarda suas leis e segue governado por altos sacerdotes, supostamente descendentes de Zadoque, o sacerdócio oriundo do tempo do rei Davi. Regime que vigora desde os tempos de Neemias, após findar do exílio babilônico. A tradução dos textos hebraicos para a língua grega possibilitou à dinastia ptolomaica e outras vertentes culturais, conhecerem os motivos fundantes do ethos judaico – tradição, estilo de vida e prática religiosa. Mas o pior estava para acontecer, num cenário nada estável entre as fronteiras da Palestina.

No ano de 199 a.C., após a batalha de Pânion entre as forças militares ptolomaicas e selêucidas, o corredor ligando o Egito aos países do Norte, passa a ser controlado pelos selêucidas, lideradas por Antíoco III, também autoproclamado, o Grande. Uma política feita com mãos de ferro será a causa de um total descontrole social na região. O controle total da cidade de Jerusalém será uma das estratégias para manter a ordem e domínio militar.

Ao regressar de sua primeira campanha no Egito, em 169, Antíoco IV, como sucessor de seu pai, saqueia o templo de Jerusalém, deixando o controle do espaço sagrado aos cuidados de uma guarnição de sua confiança. Um ano mais tarde, suas ações não só desmobilizam qualquer reação, como chegam a humilhar os habitantes de Jerusalém. O novo administrador retoma a prática de centralização militar e religiosa. Após realizar uma série de atos violentos contra os cidadãos da Palestina, impõe o culto real e modifica o espaço sagrado do Templo. O deus Zeus Olímpico recebe culto no interior do Templo de Jerusalém (2Mac 6,2). Práticas religiosas como a circuncisão, a celebração do sábado e alimentos kosher caem por terra. Ofertas e ritos de holocausto são proibidos e os moradores são obrigados a abandonar a cidade. Eis o estopim da revolta macabaica, iniciada no ano de 169/8, liderada por Matatias.

Não é difícil pensar que um tempo de profunda crise se instalou. O controle sobre o corredor geográfico de suma importância, ligando o Norte ao Sul pela costa do Mediterrâneo, já estava sobre o controle do regime selêucida. A revelia dos seus súditos, a política empreendida pelo novo regime foi tão violenta que chegou a ameaçar a continuidade das tradições religiosas da comunidade judaica.Na base de ações guerrilheiras e batalhas, Judas Macabeus (166-160a.C.) seguirá na liderança de uma guerra responsável pelo reordenamento das tradições judaicas. Em dezembro do ano 165/4 a.C ele libertará o Templo da presença selêucida. O gesto é comemorado com uma celebração de purificação. A festa da Hanukkah – festa da luz - é instituída e um armistício de paz é firmado, após a morte de Antíoco IV. Nos anos seguintes, uma nova corrente ideológica será responsável em repensar as antigas tradições e práticas religiosas.

Pela primeira vez o termo judaísmo será utilizado por iniciativa de judeus helenistas, contrapondo-se ao modelo oficial chamado de helenismo. A chamada "influência grega" (2Mc 4,10) chega a ridicularizar os adeptos à Torá e seus valores tradicionais. O "helenismo" (2Mc 4,13), torna-se algo a ser combatido e rejeitado. Não é por acaso que Eclesiástico exalta a sabedoria e a tradição de Israel (Eclo 24,1,3); a primazia do deus de Israel (Eclo 34,18-20; 36,1-4);os deveres morais a serem praticados na relação com o próximo (Eclo 4,1-10; 22,19-26; 38,16-23);as instituições sacerdotais e tradições religiosas, como meios para definir ou não a pertença ao judaísmo (Eclo 2,8-9; 39,16-35; 50,1-13; 34,21-25; 35,1-10).

As correntes filosóficas são outros elementos que colaboram na contextualização do livro de Eclesiástico. As correntes filosóficas que se apresentam de modo atraente aos olhos dos judaizantes são duas. As filosofias se dividem entre o estoicismo e epicurismo. Os discípulos de Zenão († 262a.C.) defendem que o mais elevado gesto humano repousa no controle elevado das paixões humanas. Para que tal objetivo torne-se um ato deleitoso se fazem necessárias virtudes – inclinações - voltadas para se atingir e conhecer o bem supremo. Para os adeptos de Epicuro († 270 a.C), a felicidade consiste no prazer, livre da existência da dor. ˝Deve-se, pois, filosofar quando se é jovem e quando se é velho; no segundo caso para retomar o contato com o bem, ao lembrar os dias passados, e no primeiro para ser, embora jovem, tão forte quanto um velho perante o porvir. É preciso, pois, estudar os meios de atingir a felicidade, já que com ela nós temos tudo e quando ela está ausente fazemos tudo para consegui-la" (CABALLERO, 1985, p. 60).

Neste turbilhão de caos social instalado pelo império grego e seus planos políticos altamente predatórios, a posição do autor do livro do Sirácida será de defesa. A filosofia helenista centra-se na exaltação da razão. Para os gregos não havia motivo algum de ancorar o saber humano e sua liberdade numa determinada experiência divina. A busca e modo de obter a sabedoria, a felicidade humana, as relações de poder e modos de administrar a coisa pública, bem como, as soluções às questões vitais da existência humana não podem ser trancadas em arcabouços rígidos, legais como a Lei de Moisés ou apelos proféticos. Não se forma a mente humana no ato de temer ou não uma certa divindade. Neste sentido, o pensamento helenista foi tão atraente que chegou a colocar em risco a continuidade da tradição religiosa da comunidade.


2.O LIVRO DE SIRÁCIDA

A definição sobre os aspectos canônicos ou não de um determinado texto bíblico envolve uma relação de poder. A obra de “Jesus, filho de Sirac, Eleazar, de Jerusalém, que derramou como chuva a sabedoria do seu coração” (50,27), apesar da forte autorreferência, um tanto elogiosa sobre a obra, não figura na ordem dos livros canônicos. Perguntas e argumentos para explicar tal ausência sobram (BARRERA, 1996, p. 266-275). Embora tenham prevalecidos contrastes entre as comunidades judaicas instaladas em Alexandria em comparação com as inseridas no contexto da Palestina, a obra de Sirácida, como todo o conjunto dos deuterocanônicos - Macabeus, Judite, Tobias, Sabedoria, Baruc - expõe um tempo de profunda e tensa resistência frente ao poder atrativo helenista. Essas obras e seus conteúdos estão presentes na comunidade de Qunram e ecoarão profundamente nos movimentos messiânicos na época dos romanos.

Nosso autor não consegue se manter no anonimato. O livro surgiu todo em hebraico, por volta do ano 180 a.C. Foi escrito na Palestina, já sob o domínio selêucida. Tempos difíceis. Laços familiares estão sendo desfeitos e o aumento dos pobres ecoa em suas preocupações (Eclo 3,1-16; 4,1-10; 6,14-17; 11,1.12.20.34). A cultura grega parece ser um atrativo aos mais jovens e a filosofia se expõe como saber e garantia de ascensão social (1Mc 1,11-15; Eclo 24,1-8). Por meio do desporto propagava-se a ideologia do poder dominante. Dentro desse motivo que podemos compreender a construção de um ginásio entre os muros de Jerusalém. A constante ameaça em abandonar ou, mesmo, renegar práticas e tradições religiosas e teológicas eram constantes (1Mc 1,43; 2Mc 4,13-15; 6,10; Eclo 1,1; 44,1-50). Sirácida se coloca no lugar de mestre e ferrenho defensor da religião oficial pautada na teologia da retribuição, da primazia do culto sacerdotal, da centralidade do templo. Aspectos sociológicos e religiosos em voga no pós-exílio. Seu ardor e radicalidade é tal que chega a cometer deslizes graves quando expõe suas sentenças sobre as mulheres – "Desvia o teu olho de uma mulher formosa, não fites uma beleza alheia. Muitos se perderam por causa da beleza de uma mulher, por sua causa o amor se inflama como fogo" (Eclo 9,8) e provérbios sobre a mulher - "É melhor a malícia de um homem do que a bondade de uma mulher" (Eclo 42,14a). Nosso autor parece, por demais, enraizado na mentalidade holística da mentalidade grega (AUTH, 1996, p. 43-48).

O trabalho exaustivo do avô mereceu uma bem elaborada e oportuna tradução em meados do ano 130 a.C., desta vez, na conturbada cidade de Alexandria, capital política e cultural do Império. O objetivo do neto Sirácida foi de expor às comunidades judaicas e à certa elite os conhecimentos de seus ancestrais. Com a empreitada, o kosmos, os centros culturais podem agora apreciar e aprender dos conhecimentos herdados e transmitidos da tradição religiosa de Israel.


3. ECLESIÁSTICO 13 E A TENSÃO ENTRE RICO E POBRE

A denúncia das relações injustas impostas ao pobre não deixa de ser uma outra característica do livro. Entre provérbios e sentenças, nosso autor, expõe com lucidez -como mestre dedicado à arte de ensinar – a perversa desigualdade existente no interior de uma sociedade que tinha no sistema escravagista sua mola propulsora.

O capítulo divide-se em duas partes. Numa primeira, podemos perceber o lugar social do nosso mestre. Seus pés estão numa área de conforto, mas corre perigo de perder os privilégios e seu status social, herança familiar. Seus olhos parecem constatar o aumento do grupo social dos pobres. Elevadas taxas de impostos, as constantes guerras, as necessidades, cada vez mais necessária, da mão de obra escrava, as sistemáticas perdas do direito à posse da terra (v. 1-14), explicam o aumento da pobreza. Numa segunda parte, nosso autor mostra as consequências de um sistema de exploração: a destruição do tecido social. As relações diretas, os espaços sociais de criação, a manutenção das tradições clânicas, o interesse pelo auxílio mútuo, bem como, a comunhão de ideias desaparece dando lugar a um grupo de privilegiados, chamados de ricos (v. 15-23). Os versos 24 a 26 soam como acréscimos numa redação final.

1 Quem mexe com piche acaba se sujando, e quem tem a companhia do orgulhoso torna-se semelhante a ele.
2 Não levante peso muito grande para você, e não conviva com alguém mais forte ou mais rico.
O que há de comum entre a panela de barroe a de ferro?Elas se chocarão, e a primeira se quebrará.
3 O rico pratica injustiça, e ainda reclama; o pobre é injustiçado, e ainda precisa desculpar-se.
4 Enquanto você for útil, ela vai servir-se de você; mas, quando você precisar, ele o abandonará.
5 Se você possuir bens, ele estará próximo de você, e o explorará sem remorso.
6 Enquanto ele tiver necessidade, enganará você, sorrirá e lhe dará esperanças. Dirá coisas bonitas e perguntará: “Do que é que você precisa?”.
7 Fará você ficar confuso nos banquetes dele, até despojar você duas ou três vezes. Enfim, vendo você, passará adiante e sacudirá contra você a cabeça.
8 Cuidado para você não ser enganado, e para não ficar humilhado em sua própria falta de bom senso.
9 Quando um poderoso lhe fizer um convite, recuse-o, e ele o convidará com maior insistência.
10 Não se anime demais, para depois não ser rejeitado; nem fique muito longe para não ficar esquecido.
11 Não queira conversar com ele de igual para igual, nem acredite em suas muitas palavras:
12 com seu palavreado, ele põe você à prova e, mesmo sorrindo, ele o está examinando.
13 O ímpio não guardará os segredos que você lhe confiar, e não o poupará de maus tratos e correntes.
14 Tome cuidado e preste atenção, porque você está caminhando na direção do precipício.

A narrativa expõe de modo claro dois lados, duas tendências de ver e atuar diante das propostas impostas pela vida. Sirácida é mestre e seu desejo é acenar o caminho da felicidade, da vida feliz aos seus concidadãos. Nesta parte do capítulo, o termo pobre (ptōchos) (v.3)é citado uma única vez em contraposição ao termo rico (ploúsios), duas vezes (v.2,3). Mas a narrativa tem seu destaque no comportamento do rico, no qual são utilizados inúmeros termos equivalentes.

Considerando a necessidade em diferenciar sentenças de provérbios, cremos ser oportuno, acenar o número de provérbios, nesta parte do texto. Afinal, é sobre o aspecto proverbial que se edifica a sabedoria popular. Sentenças são discursos, frases explicativas, ideias ou argumentos para esclarecer ou justificar uma determinada tomada de posição ou comportamento social (SCHWANTES, 2009, p.15-16).

Eis uma máxima proverbial: o pobre deve evitar a companhia do rico. Quatro seguidos provérbios inauguram a narrativa:

Quem mexe com piche acaba se sujando,

e quem tem a companhia do orgulhoso torna-se semelhante a ele (v.1).

O termo piche (pissēs) refere-se, no contexto, ao rico. Embora faça uso do sinônimo orgulhoso (hyperēfanos), nosso autor faz uma nítida referência ao grupo a ser evitado. O piche ou resina era usado como calefação das paredes ou revestimentos dos telhados. Ao trabalhar com uma substância semilíquida, gelatinosa é impossível evitar respingos.

Não levante peso muito grande para você,

e não conviva com alguém mais forte ou mais rico.

O que há de comum entre a panela de barro e a de ferro?

Elas se chocarão, e a primeira se quebrará.

O contexto assim demonstra, quando consideramos o paralelismo nos provérbios: "peso grande" está diretamente implicado ao forte ou rico (v.2); os dois tipos de panelas: "barro e ferro" que ao se chocarem, a mais frágil, barro (chytra) com algo mais resistente como o ferro (lebēta), se quebra (v.2).

Um quarto provérbio, esse na métrica de paralelismo completivo, relaciona o "rico (que) pratica injustiça" tem o direito que reclamar, mas o "pobre (que pratica a justiça, mas) é injustiçado" (v.3).

O rico pratica injustiça, e ainda reclama;

o pobre é injustiçado, e ainda precisa desculpar-se.

Na visão antropológica do nosso autor vigora um apelo a certo tipo de comportamento social. Ele reconhece o fascínio que a riqueza impõe ao ser humano (Eclo 5,1; 29,22), mas em nosso caso, sua preocupação, centra-se no processo, numa certa dinâmica social que leva ao empobrecimento e situações vexatórias do pobre frente ao rico. Após os quatro provérbios, seguem, ao menos, sete sentenças explicativas (v.4-14). Tratam-se de formas escolásticas, conselhos, reflexões acenando atitudes práticas eúteis ao dia a dia. O rico é apresentado como alguém que sempre leva vantagem. Utiliza-se de sua riqueza para definir seu lugar no estrato social e sua supremacia diante do pobre.

Sirácida apela a seus interlocutores a terem prudência: 1. Não se deixar levar por um relacionamento utilitarista, diante do rico (v.4); 2. A proteção de seu patrimônio, diante de uma contenda com o rico (v.5); 3. Apelo para não se deixar levar por um certo tipo de malandragem do rico. A sagacidade, certa esperteza revestida de falsidade é cruel que faz o rico dizer ao pobre "do que é que você precisa" (v.6-8), com a finalidade de firmar total dependência do pobre frente a seu patrimônio financeiro. É ingenuidade não perceber as tramoias dos ricos em apoderar-se do patrimônio ou da vida do pobre. 4. Saber responder ao convite e manter certo grau de independência (v.9-10). Trata-se de manter certo grau de sobriedade frente ao rico: nem muita ou pouca intimidade; 5. Saber utilizar as palavras para não ser ridicularizado (v.11-12). O rico sempre tem segundas intenções: "mesmo sorrindo (prosgelōn), ele o está examinando (exetasei)". Pela palavra revelamos nosso poder de se comunicar. Ela é o meio privilegiado para homens e mulheres se comunicarem com o mundo, com a sociedade (LÍNDEZ, 1999, p.114-115); 6. Não revelar tua intimidade, teu "segredo", pois ela não manterá nenhum acordo firmado. Não se isentará de impor aos pobres maus tratos e até mesmo correntes (v.13);7. Ocorrem consequências, caso o discípulo não siga os ensinamentos pautados pelo mestre: segue "caminhando na direção do precipício" (v.14).

Numa segunda parte (v. 15-24), vemos os contrastes sociais gerados na relação desigual entre o rico e o pobre.

15 Todo ser vivo gosta de seu semelhante, e todo homem gosta do seu próximo.
16T odo animal se une com os de sua espécie, e todo homem se associa com seu semelhante.
17 O que há de comum entre o lobo e o cordeiro? A mesma coisa acontece entre o pecador e o piedoso.
18 Que paz pode haver entre a hiena e o cão? E que paz pode haver entre o rico e pobre?
19 No deserto os asnos selvagens são a presa dos leões, e os pobres são a presa dos ricos.
20 Para o orgulhoso a humildade é abominação, e o pobre é a mesma coisa para o rico.
21 Quando o rico tropeça, seus amigos o sustentam; quando o pobre cai, seus amigos o rejeitam.
22 Quando o rico comete um erro, muitos o defendem; e se ele diz tolices, os outros o aprovam.
Quando o humilde erra, todos o condenam; e quando fala com bom senso, não lhe dão atenção.
23 Quando o rico fala, todos se calam e elevam até as nuvens a palavra dele; quando o pobre fala, as pessoas perguntam: "Quem é ele?" E se ele tropeça, o ajudam a cair.
24 É boa a riqueza em que não há pecado; mas, na opinião do ímpio, a pobreza é má.

O paralelismo rico versuspobre é predominante nasegunda parte da narrativa. Nosso autor,de modo proposital, enfatiza os contrastes sociais, ao insistir nas construções proverbiais marcadas por um estilo de antítese. Cinco vezes, de modo evidente, encontramos os resultados dessas comparações (v.18,19,20,21,23). Por questão pedagógica, bom enumerá-las, no desejo de perceber a métrica textual:

  • Não existe paz (eirēnē) entre a hiena / cão.

"Que paz pode haver entre rico e pobre?" (v. 18).

  • Quando no deserto, os anos são presas dos leões.

"Os pobres são a presa dos ricos" (v.19),

  • · A humildade é abominação ao orgulhoso.

"O pobre é a mesma coisa – abominação - ao rico" (v.20),

  • · O rico apenas tropeça e é amparado pelos amigos.

"Quando o pobre cai, seus amigos o rejeitam" (v.21),

  • · O rico fala, todos se calam, suas palavras chegam às nuvens

"O pobre fala, as pessoas ignoram, e perguntam "quem é ele?" (v. 23).


observar a sequência binária entre os versos 18 a 23 não é alterada, mas sofre certo hiato no verso 22, ao acrescentar um estilo mais completivo no jogo das antíteses entre o rico e o pobre. Nota-se que a afirmativa central, o sujeito da primeira frase, recebe uma afirmação mais desenvolvida, conclusiva na segunda frase. Vejamos:

22Quando o rico comete um erro, muitos o defendem;

e se ele diz tolices, os outros o aprovam.

Quando o humilde erra, todos o condenam;

e quando fala com bom senso, não lhe dão atenção.

A primeira afirmativa: "o rico comete um erro, muitos o defendem" recebe uma frase esclarecedora à primeira afirmação. Em nosso verso, o rico "diz tolices" e muitos o aprovam. O paralelismo antitético segue, na mesma métrica e ritmo. Nosso destaque recai na segunda frase – completiva – da primeira afirmativa.

Quando o humilde erra, todos o condenam;

e quando fala com bom senso, não lhe dão atenção.

Diante das antíteses, seguidas dos dois complementos, vê-se o seguinte esquema:

Rico →erro → defendem // tolices → outros → aprovam.

Pobre→ erro → condenam // bom senso → ninguém → sem atenção.

Por meio destas métricas é possível perceber o modo como o descontrole social é denunciado nos provérbios. "Na luta de classes" (PEREIRA, 1992, p. 77) descobre-se que o pobre é vítima de uma estrutura, de uma teia armada para perpetuar sua posição: seus amigos o rejeitam (v. 21b), todos o condenam (v. 22b), ele tropeça e o ajudam a cair (v. 23b). A preocupação com o pobre é coletiva. Tem como resultado o conjunto das ações humanas e não uma ingerência divina. Aliás, no capítulo não há referência alguma ao nome de uma divindade, exaltada em outras partes do livro (Eclo 1,1-30; 6,35-37; 19,20).

Ao findar a narrativa, nosso autor parece justificar sua própria posição social de sábio e renomado, na Jerusalém dos anos 200-175 a.C. (Eclo 50,1-21; 44,1-50,26). Ao fazer uso de duas máximas. A primeira exalta a riqueza adquirida, quando nela não existe pecado (hamartia) (v. 24a) e, uma segunda, radicaliza sua condenação ao ímpio que vê na pobreza algo de perverso (v. 24b).


4. CONCLUSÃO

Não podemos querer encontrar no conjunto dos livros sapienciais as mesmas denúncias, feitas num alto grau de clarividência, em defesas de grupos minoritários, como encontramos nos profetas que atuaram nos reinos do Norte e do Sul, diante de monarcas déspotas e subservientes às políticas imperialistas. A trilogia social, formada por grupos excluídos e injustiçados – estrangeiros, órfãos e viúvas – receberam longos discursos na literatura profética (Is 1,23; 10,2), Jr (7,6; 22,3; 49,11), Ez (22,7).

Quando os reinos de Israel e Judá, pela primeira vez, depararam-se com as ações expansionistas do Império Assírio, rumo ao Sul, não faltaram vozes proféticas em defesas das vítimas das guerras e dos planos econômicos. Em torno do ano 765 a.C., Isaías prega em Jerusalém sua cidade natal contra os abusos das autoridades (Is 29,15-24; 28,16-18). Miqueias recorre às metáforas das carnes nas panelas como ferrenho crítico dos planos políticos que no desvio da prática do direito elevam ao grau de exclusão os pobres (Mq 3,1-2). No Reino do Norte, a voz anônima do agricultor Amós ecoou na defesa do pobre, ao ponto de ser expulso de um santuário oficial a serviço do rei (Am 4,1-3; 7,10; 8,4-8). Oseias centrou sua voz na denúncia de uma ideológica – prática religiosa - voltada para justificar a dominação. A idolatria serviu à exclusão. Nos anos de 750 a 724, período de sua atividade, recorreu às narrativas, aos provérbios e às sentenças ao apelar para a conversão e findar o sistema de dominação (Os 4,11-12; 8,4;)

Como em outros textos sapienciais, a defesa dos pobres, os apelos para uma essencial correção do rico frente ao pobre, não passaram despercebidos. As ações dos profetas ecoam nas narrativas sapienciais (Jó 24,9; 29,12-13; Sl 12; 68,6; 78,64; 109,9; Pr 15,25). Vemos discursos realçando a preferência divina na defesa dos grupos que sofrem violência: "Pai dos pobres e juiz das viúvas, assim é Deus na sua santa morada" (Sl 68,6).Em seu conjunto, o livro do Eclesiástico expõe uma narrativa bem-humorada. Sua posição social o favorece numa visão holística na conturbada época. Parece brincar com as palavras, com as correntes filosóficas de sua época.

De posse do alerta contido nos provérbios e sentenças expostos no capítulo 13 de Sirácida, cremos ser possível o "retorno do religioso" como instrumento indispensável na crítica ao sistema excludente que ousa imperar como único meio nas convenções sociais. O capital deixou de ter uma função social, de estar ao uso das pessoas e grupos, para impor-se, como soberano, ao universo político. Tudo deve estar direcionado e disponibilizado para agradar um ser invisível: o mercado. "Ele sobe", "fica irado", "responde" ou "manifesta-se" diante das medidas políticas ou reações sociais. Grandes grupos financeiros controlam empresas, políticos submetidos aos interesses do capital. Não importa a capacidade da terra em recompor-se diante de tudo que dela extraímos. A preocupação primeira e única concentra-se na rentabilidade financeira (DOWBOR, 2017, p. 129).

Uma simples prova desse grau de subserviência ao capital pode ser evidenciada nos recentes redimensionamentos da política no Brasil e em toda América Latina. Os poucos avanços sociais conquistados por governos de centro-esquerda, em décadas passadas,rapidamente saem de pauta. No Brasil, após o golpe de 2016, em menos de dois anos, estatais petrolíferas foram privatizadas e alinhadas ao capital internacional. Importantes centros de pesquisas agonizam, em decorrência de elevados cortes de verbas e incentivos. Uma reforma trabalhista afrontou, na calada da noite, direitos e conquistas dos trabalhadores. Projetos voltados para garantir às classes pobres a garantia ao trabalho, à moradia e o acesso à terra são congelados. Tudo para satisfazer os interesses do mercado.

As noites escuras, os sistemas de dominações não podem apagar a força da tradição profética. Nossas lutas têm significados. As somas de tantas e oportunas iniciativas acenam que as crises são sempre compreendidas como um oportuno kairos. As inquietações do mestre Sirácida despertam para práxis novas e contundentes e que nossos sonhos, herdados de passadas gerações, renascem em outros corações.

BIBLIOGRAFIA

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AUTH, Romi. Deslizes do Sirácida? Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 48, p.43-48, 1996.

BARRERA, Julio Trebolle. A Bíblia judaica e a Bíblia cristã: introdução à história da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1995.

CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1985.

CALDUCH-BENAGES, Muria (ed.), Eclesiástico. São Paulo: Paulinas, 2008.

CERESKO, Anthony R. A sabedoria no Antigo Testamento. São Paulo: Paulus, 2004.

DOWBOR, Ladislau. A era do capital improdutivo. São Paulo: Outras palavras & Autonomia Literária, 2007.

LÍNDEZ, José Vílchez. Sabedoria e sábios em Israel. São Paulo: Loyola, 1999.

LÖWY, Miguel; SAYRE, Roberto. Revolta e Melancolia. São Paulo: Boitempo, 2015.

NICCACCI, Alviero. A casa da sabedoria. São Paulo: Paulinas, 1997.

MARQUES, Maria Antonia. Introdução ao livro da Sabedoria. Vida Pastoral, São Paulo, n.323, p.3-12, set./out., 2018.

MONTEFIORE, Simon Sebag. Jerusalém: a biografia. São Paulo: Companhia das Letras. 2013.

SCHWANTES, Milton. Sentenças e provérbios: sugestões para a interpretação da Sabedoria. São Leopoldo: Oikos, 2009.

PASSARO, Angelo; BELLIA, Giuseppe. The Wisdom of Ben Sira: studies on tradition, redaction, and theology. Berlin, Walter de Gruyter, 2008.

PEREIRA, Ney Brasil. Sirácida ou Eclesiástico. São Leopoldo, Oikos, 1992.

[1] Waldemar Rossi faleceu aos 83 anos, no dia 4 de Maio, no Hospital do Servidor Público, em decorrência de problema cardiovascular. Nascido na cidade de Sertãozinho, no dia 17 de Agosto de 1933, no início da década de 60, muda-se para São Paulo, em busca de melhores condições de trabalho. "Forjado na luta", como gostava de dizer, descobre as contradições entre capital e trabalho, tornando-se membro da Coordenação da Juventude Operária Católica (JOC). No ano de 1967 encabeça a Chapa de Oposição Sindical, em pleno regime militar. Por sua lucidez, caráter ético e solidário, sofrerá, como outros de seus companheiros, a tortura nos porões do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em São Paulo. Nas décadas seguintes colaborará intensamente na organização da Pastoral Operária e na construção de um novo sindicalismo. Está na fundação da CUT (Central Única dos Trabalhadores), no ano de 1983. Nos anos seguintes, mesmo nos dias em que antecederam sua morte, não deixou desmoronar de lado suas preocupações, com um país justo e solidário, com os pequenos. Assessorias, palestras e colaboração como articulista no forjar de uma imprensa livre e democrática, marcaram seu espírito inquieto e socialista.

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Antonio Carlos Frizzo é Padre na diocese de Guarulhos e professor em Teologia Bíblica. Possui mestrado pelo Instituto Católico de Paris e doutorado pela PUC-RJ. Entre os anos de 1992 a 1996 atuou como secretário Regional da CNBB – Sul I.

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Professor Padre Antonio Carlos Frizzo

Possuo doutorado em Teologia Bíblica pela PUC-Rio (2009). Sou professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP- SP) e assessoro cursos no Centro Bíblico Verbo, SP.

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